2011

Ana Moura (Box)
Editora: Universal Music
Suporte: 4 CD + DVD

Ana Moura tem a sua discografia completa editada numa Box. Uma boa oportunidade de obter os multi-galardoados “Aconteceu”, “Guarda-me a Vida na Mão”, “Para Além da Saudade”, “Leva-me aos Fados” e o DVD “Coliseu”.

    2011

    Aconteceu (reedição)
    Editora: Universal Music
    Suporte: 2 CD

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    No momento em que a Ana Moura editou o seu segundo álbum , “Aconteceu” (2004), era já uma realidade o seu êxito em França, Holanda e Itália preparando igualmente espectáculos nos EUA, nomeadamente no Carnegie Hall de Nova Iorque, que a levaram à consagração definitiva nesses países, começando a abrir-lhe portas para uma sólida carreira internacional. Em Portugal, e dada a qualidade deste álbum, começamos a assistir à consolidação da sua ainda curta mas sólida carreira, feita de passos seguros. “Aconteceu” é agora reeditado em Portugal com a capa usada nas edições internacionais.

      2009

      Leva-me aos Fados
      Editora: Universal Music
      Suporte: CD

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      Este disco conta com as participações e composições dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, José Mário Branco, Mário Raínho, Tózé Brito, Nuno Miguel Guedes e Jorge Fernando. É também a primeira vez que a fadista se aventura na composição com o tema ‘Que Dizer de Nós’. “Leva-me aos Fados” trouxe a Ana Moura uma extensa digressão internacional que leva a fadista aos quatro cantos do planeta para actuar em algumas das mais prestigiadas salas internacionais. Mantendo paralelamente a digressão em Portugal, foi com este disco que Ana voltou a subir ao palco dos Coliseus para dois concertos especiais em que teve como convidada a Frankfurt Radio Bigband.

      • Alinhamento
        • 01 Leva-me aos fados
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Chegaste a horas
          como é costume
          bebe um café
          que eu desabafo o meu queixume

          Na minha vida nada dá certo
          mais um amor que de findar
          me está tão perto

          Leva-me aos fados onde eu sossego
          as desventuras do amor a quem me entrego
          Leva-me aos fados que eu vou perder-me
          Nas velhas quadras que parecem conhecer-me

          Dá-me um conselho que o teu bom senso
          é o aconchego de que há tempos não dispenso.
          caí de novo mas quero erguer-me
          olhar-me ao espelho e tentar reconhecer-me

        • 02 Como uma nuvem no céu
        • Letra e Música de Tozé Brito

          Dizem as crenças, as leis, as sentenças
          lê-se em anúncios, na palma da mão
          como uma nuvem no céu
          o nosso amor não tem solução
          dizem os sábios, os lábios, os olhos
          vem em jornais e revistas que li
          como uma nuvem no céu
          o nosso amor já não passa daqui

          Mentira, como uma nuvem no céu
          Ou como um rio que corre para o mar
          Também eu corro para ti
          Isso nunca irá mudar

          Dizem os livros, os astros, a rádio
          Vem nos horóscopos, nos editais
          Como uma nuvem no céu
          O nosso amor já não dura mais
          Dizem as folhas do chá e as notícias
          Dizem as fontes bem informadas
          Como uma nuvem nocéu
          O nosso amor tem as horas contadas

          Dizem os sonhos, as lendas, a história
          Vem num artigo, saiu num decreto
          Como uma nuvem no céu
          O nosso amor carece de afecto
          Dizem os homens, as fadas, os fados
          E vem o código da nossa estrada
          Como uma nuvem no céu
          O nosso amor não vai dar em nada

        • 03 Por minha conta
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Fiquei por minha conta
          Mercê dum passo incerto
          A culpa em mim se apronta
          Ronda-me a alma por perto

          Fiquei num olhar fundo
          Perdido não sei onde
          Só sei ceder-me ao mundo
          Onde o meu ser se esconde

          A noite é fria
          Nebulosa bruma
          Que me seguia
          A parte nenhuma

          Tudo é vazio
          Na mão fechada
          Cerra-se o frio
          Não deu por nada

          Fiquei ao fim de tudo
          Num tudo sem ter fim
          E a voz dum grito mudo
          Anseia saber de mim

        • 04 A Penumbra
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          ???????Uma noite em claro estou, eu não sei rezar
          Pensamento inútil vou tentar-me anular
          Fiquei triste, triste sou, eu não sei rezar

          Vem que a alma se afunda
          Nesta imensa penumbra
          Que a noite me está morrendo
          Que a noite me está morrendo

          Minha noite um brilho tem, um sinal plebeu
          Não tenho malícia mãe, o discuido é teu
          O amor não se nega nem a quem nega o seu

          Uma noite em claro estou a saber de mim
          À flor da minh’alma sou princípio do fim
          Quem me prendeu, quem me amou
          Não cuidou de mim

        • 05 Caso arrumado
        • Letra de Manuela de Freitas
          Música de Pedro Rodrigues

          Não te via há quase um mês
          Chegaste mais uma vez
          Vinhas bem acompanhado
          Sentaste-te à minha mesa
          Como quem tem a certeza
          que somos caso arrumado

          Ela não me queria ouvir
          Mas tu pediste a sorrir
          O nosso fado preferido
          Fiz-te a vontade, cantei
          E quando à mesa voltei
          Ela já tinha saído

          Não é a primeira vez
          Que começamos a três
          Eu vou cantar e depois
          O nosso fado que eu canto
          É sempre remédio santo
          Acabamos só nós dois

          Eu sei que tu vais voltar
          P’ra de novo eu te livrar
          De um caso sem solução
          Vou cantar o nosso fado
          Fica o teu caso arrumado
          O nosso caso é que não

        • 06 Talvez depois
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Custódio Castelo

          Deixei de mim as frases que trocámos
          Os beijos e o tédio de os não ter
          Sem querer nós nops cegámos
          Sem querermos ver

          As roupas e os livros não os trouxe
          Que se envelheçam cobertos de pó
          Por querermos que assim fosse
          Deixo-te só

          Recuso a sombra, triste véu sobre minh’alma
          Quero-me longe e sem temores fujo de mim
          Esmorece o dia, cai a noite e não se acalma
          O querer saber qual a razão de ver-me assim

          Não sei ser razoável nem te espero
          No tempo que pediste p’ra nós dois
          Amar-te assim não quero
          Talvez depois
          Marcaste em mim a dúvida cinzenta
          Do sentimento que te unia a mim
          Sabê-lo não me alenta
          Melhor o fim

          Palavras, só palavras que como alento
          Seduzem a minh’alma a querer-te tanto
          Atrais-me o pensamento como um quebranto

        • 07 Rumo ao Sul
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Carlos Viana

          Estou na estrada p’ra onde eu já não quero ir
          No escritório esta tarde foi tudo p’ra me deprimir
          A buzina apressada de um carro que me quer passar
          Na portagem um rosto indiferente diz-me para pagar

          Rumo ao sul, sem amor, devagar
          O meu sonho faz-se ao mar
          Seu amor rumo ao sul
          O meu céu perdeu o azul

          Volto as costas às luzes brilhantes da cidade mãe
          Sou sombra impiedosa do apego a quem já não se tem
          Sei que ao fim desta estrada há uma casa que suponho ter
          E a vontade indomável que teima em me querer perder

        • 08 Fado das águas
        • Letra de Mário Raínho
          Música de Alfredo Marceneiro

          Dentro do rio que corre
          No leito da minha voz
          Há uma saudade que morre
          Dentro do rio que corre
          Em lágrimas até á foz

          Dentro do mar mais profundo
          Reflectido em meu olhar
          Não pára o pranto um segundo
          Dentro do mar mais profundo
          No meu rosto a desmaiar

          Dentro das águas nascentes
          Das fontes que a alma encanta
          Num crescendo de correntes,
          Dentro das águas nascentes
          Correm mágoas p’la garganta

          Dentro da chuva caída
          Como franjas do meu fado
          Eu encharco a minha vida
          Dentro da chuva caída
          Meu canto é d’aguas lavado

          Eu encharco a minha vida
          Dentro da chuva caída
          Como franjas do meu fado

        • 09 Fado vestido de fado
        • Letra de Fernando Maurício e Mário Raínho
          Música de Tradicional

          Se fado é miséria e dor
          Se é ciúme, se é pecado,
          Que serás tu, meu amor,
          Todo vestido de fado

          Talvez sejas o quebranto
          Meu pranto, em horas tardias,
          Rosário de avé-marias
          Que rezo quanto te canto

          Pois fico neste entretanto,
          Dum acorde desenhado,
          Porque te chamo num fado,
          Te canto com tal fervor,
          Se fado é tristeza e dor
          Se é ciúme se é pecado

          Os meus sentidos dispersos,
          Não me conseguem dizer
          Razões da minh’alma ser
          Refúgio de tantos versos

          Mistério dos universos
          Pra onde foi atirado
          Este desejo, rogado
          Na minha voz em clamor,
          Que serás tu, meu amor,
          Todo vestido de fado

        • 10 Crítica da razão pura
        • Letra de Nuno Miguel Guedes
          Música de Tradicional

          Porque quiseste dar nome
          Ao gesto que não se diz
          Ao jeito de ser feliz
          Porque quiseste dar nome?

          De que te vale saber
          De que é feita uma paixão
          As estradas de um coração
          De que te vale saber?

          Porque quiseste pensar
          Aquilo que apenas se sente
          O que a alma luz e gente
          Porque quiseste pensar?

          Diz onde está a razão?
          Daquilo que não tem juízo
          Que junta o choro e o riso
          Diz onde está a razão

          Porque quiseste entender
          O fogo que fomos nós?
          Meu amor, se estamos sós
          Foi porque quiseste entender

        • 11 De quando em vez
        • Letra de Mário Raínho
          Música de João Maria dos Anjos

          De quando em vez lá te entregas
          Nesse sim, em que te negas,
          Ou se não, que me é tanto
          Não te pergunto os porquês
          Deste amar, de quando em vez,
          Ou talvez de vez em quando

          Quase sempre de fugida,
          Como criannça escondida,
          Nosso amor brinca com o fogo
          Se queremos dizer adeus,
          Porque dizemos meu Deus
          Simplesmente um até logo

          E o enleio continua
          À mercê de qualquer lua
          Que nos comanda os sentidos
          E a paixão que não tem siso,
          Deixa-nos sem pré-aviso
          De corpo e alma despidos

          Por teimosia, ou loucura,
          Algemamos a ventura,
          Do amor, em nós, reencarnando
          Prefiro, como tu não vês,
          Amar-te de qundo em vez
          Ou talvez de vez em quando

        • 12 Fado das mágoas
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de José Manuel David

          As mágoas não me doem, não são mágoas
          No plano da minh’alma já não moram
          Se as águas se evaporam, não são águas
          São etéreas lembranças do que foram

          O pranto que então frágil não contive
          Do cimo dos meus olhos se lançou
          Que de tanto chorar não mais o tive
          Nem a última das lágrimas me ficou

          Não deitei fora as dores, mas hoje trago-as
          À beira do meu ser de ti deserto
          O que vês nos meus olhos não são mágoas
          São apenas dum amor que não deu certo

        • 13 Águas Passadas
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de José Mário Branco

          Sei que os dias hão-de dar-me a paz que eu quero
          Sei que as horas hão-de ser menos pesadas
          E que as noites em secreto desespero
          Hão-de ser recordações, águas passadas

          Sei que tudo tem um fim, e o fim de tudo
          É o tudo que me resta por viver
          E o teu olhar inquieto, onde me ilude
          É o desvio da minh’alma a se perder

          Sei que sempre que te sei em outros braços
          Há um punhal a atravessar todo o meu ser
          Os meus olhos a alongarem-se num traço
          São o espelho da minh’alma a não querer ver

          Sei no entanto, que há uma luz no horizonte
          Que antevejo, entre lágrimas resignadas
          Que esta história, seja a história onde se conte
          O que um dia em mim serão águas passadas

        • 14 Que dizer de nós
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Ana Moura

          A sombra ensombra-me os dias
          Num divagar lento
          As mãos dobradas vazias
          Por sobre o próprio lamento
          Que dizer de nós amor?
          Sentam-se as horas

          Rodopiam os segundos
          Na perseguição de nós
          Como abismo escuro e fundo
          Que atrai-me assim o ser e a voz
          Não é mais do que um perdido
          Lamento atroz

          Perdidos olhos agueiam
          Olham sem ver, cegos
          Redondas frases anseiam
          Fazer-se voz eu nego
          Que dizer de nós amor?
          Tudo se oculta
          Tudo é estreito e estreita em nós
          A margem da culpa
          Como a sombra a que me dei
          Que atrai-me assim o ser e a voz
          Não é mais do que um pedido
          Lamento atroz

        • 15 Não é um fado normal
        • Letra e Música de Amélia Muge

          Olhas p’ra mim
          Com esse ar reservado
          A estoirar pelas costuras
          Nem sei se estou em Lisboa
          Será que é Tóquio ou Berlim?
          Tu não me olhes assim!
          Porque o teu olhar tem ópio
          Pitadas de gergelim

          Mas se isto é fado
          Ponho o gergelim de lado
          Vou buscar o alecrim
          E tu sempre a olhar p’ra mim
          Como se alecrim aos molhos
          Atraíssem os teus olhos
          Não tenho nada com isso
          Alguém que quebre este enguiço
          Que eu não respondo por mim

          E já estou, quase a trocar
          O mal pelo bem, e o bem pelo mal
          Se isto é fado
          Não é uma fado normal
          A trocar, o mal pelo bem e o bem pelo mal
          Não é um fado normal

          Vou por lugares
          Nunca dantes visitados
          E há que ter alguns cuidados
          Porque bússola não há
          E baralham-se os sentidos
          Se andamos ao Deus-dará
          Sem sentinelas nos olhos
          Vou confiar no ouvido
          E nada vai estar perdido

          Mas se isto é fado
          Vou entristecer o quadro
          P’ra tom de cinza acordado
          Que eu não quero exagerar
          No meio do nevoeiro

          Mas se isto é fado
          Vou entristecer o quadro
          Que eu não quero exagerar
          No meio do nevoeiro
          Teimo em ver o teu olhar
          Que não ser derradeiro
          Alguma coisa se solta
          Que talvez não tenha volta

      2008

      Coliseu
      Editora: Universal Music
      Suporte: DVD

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      Ana Moura era, já nesta altura, uma das maiores certezas do fado nacional e internacionalmente. Este é o documento da estreia da fadista no palco do Coliseu de Lisboa a 26 de Junho de 2008. Um concerto memorável.

      2007

      Para Além da Saudade
      Editora: Universal Music
      Suporte: CD

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      Neste trabalho, os fados tradicionais convivem com outros em formato canção e é nas letras que a fadista nos reserva algumas (boas) surpresas como no tema “E Viemos Nascidos do Mar” que conta com um poema de Fausto, Amélia Muge que lhe escreveu “O Fado da Procura”, ou na sua escolha de um poema de Fernando Pessoa em “Vaga, no Azul Amplo Solta”, do qual sai o título do disco. Este último tema foi musicado pelo lendário músico espanhol Patxi Andión, cantando-o também, em dueto e em castelhano, com Ana. Destaque ainda para a participação de Tim Ries, o saxofonista dos Rolling Stones, que compôs a música de “Velho Anjo” e toca saxofone no tema “A Sós Com a Noite”. Jorge Fernando é, mais uma vez, o produtor musical do disco, sendo também o autor/compositor de alguns temas. Ana Moura gravou com Custódio Castelo na guitarra portuguesa (o guitarrista também assina algumas músicas do álbum), Filipe Larson no viola-baixo e Jorge Fernando na viola.

      • Alinhamento
        • 01 Os búzios
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Havia a solidão da prece no olhar triste
          Como se os seus olhos fossem as portas do pranto
          Sinal da cruz que persiste
          Os dedos contra o quebranto
          E os búzios que a velha lançava
          Sobre um velho manto

          À espreita está um grande amor
          Mas guarda segredo
          Vazio, tens o teu coração
          Na ponta do medo
          Vê como os búzios caíram
          Virados p’ra Norte
          Pois eu vou mexer no destino
          Vou mudar-te a sorte

          Havia um desespero intenso na sua voz
          O quarto cheirava a incenso mais uns quantos pós
          A velha agitava o lenço
          Dobrou-o, deu-lhe dois nós
          E o seu Pai de Santo falou
          Usando-lhe a voz

          À espreita está um grande amor
          Mas guarda segredo
          Vazio, tens o teu coração
          Na ponta do medo
          Vê como os búzios caíram
          Virados p’ra Norte
          Pois eu vou mexer no destino
          Vou mudar-te a sorte

        • 02 E viemos nascidos do mar
        • Letra e Música de Fausto Bordalo Dias

          E muito se espantam da nossa brancura
          Entretanto
          E muito pasmavam de olhar
          Olhos claros assim
          Palpavam as mãos e os braços
          E outras partes
          Portanto
          Esfregavam de cuspo minha pele
          Para ver se era
          Enfim
          Uma tinta
          Ou se era de estampa
          Uma carne tão branca
          Vendo assim que era branco
          O meu corpo e a brancura de então
          Extasiam
          E muito se pasmam
          De todo em admiração

          E uns escondem as suas vergonhas
          Cobertas de estopas
          E eram grandes e gordos
          E baços
          E enxutos
          Os pretos
          Pelas ventosidades
          Confundem traseiros e bocas
          E tapam aqueles e estas
          Dobram calafetos
          E os mais pardos
          Lá vão quase nus
          Vão ao léu
          Gabirus
          E de tetas até à cintura
          Há mulheres crepitantes
          Tão desnudas
          Meneiam na dança
          O seu corpo dançante

          E éramos brancos de assombro
          E nascidos do mar
          Pelas naves
          Guiados pelos ventos do céu
          E pelo voo das ave

        • 03 A voz que conta a nossa história
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Armando Machado (Fado Licas)

          Amiga, no meu peito as horas dormem
          Num compassar dolente e sossegado
          Seduz a minha alma uma voz d’homem
          Que ao longe entoa triste um triste fado

          Como se aquela voz entristecida
          Contasse a nossa história a toda a gente
          Cada quadra parece ser escolhida
          Do amor que quer doer-me lentamente

          E enquanto eu não reclamo a dor dos dias
          Em que me afundo a sós nesta memória
          No frio das noites frias e vazias
          Só cabe a voz que conta a nossa história

        • 04 Águas do Sul
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Custódio Castelo

          Escurece o azul
          Está negro o céu
          Águas do Sul
          Nunca assim choveu
          Passar a ponte
          Noite cerrada
          Água da fonte
          Turva e enlameada
          Rosário triste
          Nas mãos do crente
          Deus guarde a sorte da gente

          Esquiva-se a luz
          Dos meus faróis
          Pesa-me a cruz
          Vida quanto dóis
          Velho sinal
          Curva apertada
          Vê-se tão mal
          Na estrada molhada
          Sorriso triste
          Ai de quem não mente
          Deus guarde a sorte da gente

          Cedi aos medos
          Fugi à dor
          Por entre os dedos
          Fugiste-me, amor
          Leve embaraço
          Não ver ninguém
          Fundo cansaço
          Reduzo p’ra cem
          Que noite triste
          Penso de repente
          Deus guarde a sorte da gente

        • 05 O fado da procura
        • Letra e Música de Amélia Muge

          Mas porque é que a gente
          Não se encontra?
          No Largo da Bica
          Fui-te procurar
          Campo de Cebolas
          E eu sem te encontrar
          Eu fui mesmo até
          À Casa do Fado
          Mas tu não estavas
          Em nenhum lado

          Mas porque é que a gente
          Não se encontra?

          Mas porque é que a gente
          Não se encontra?
          Já estou sem saber
          O que hei-de fazer
          Se seguir em frente
          Ai Madre de Deus
          Se voltar atrás
          Ai Chiados meus
          E o rio diz:
          Que tarde infeliz

          Mas porque é que a gente
          Não se encontra?

          Mas porque é que a gente
          Não se encontra?
          Já estou farta disto
          Farta de verdade
          Vou beber a bica
          Sentar e pensar
          Ver se esta saudade
          Ai fica ou não fica…

          E talvez sem querer
          Não querem lá ver
          Sem te procurar
          Te veja passar

          Sem te procurar
          Te veja passar

        • 06 Rosa cor de rosa
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Custódio Castelo

          Rosa, rosa cor-de-rosa flor
          A florir os meus cuidados
          Sobra-me a dor, sobra-te a cor
          P’ra cumprir meus fados
          Sobra-me a dor, sobra-te a cor
          P’ra cumprir meus tristes fados

          Rosa, rosa cor-de-rosa traz
          A saudade apetecida
          Fico-me atrás, roubo-te a paz
          Se te roubar à vida
          Fico-me atrás, roubo-te a paz
          Se te roubo um dia a vida

          Rosa, rosa cor-de-rosa enfim
          Quando a cor se desvanece
          Eu sei de ti, sabes de mim
          Quando o amor acontece
          Eu sei de ti, sabes de mim
          Quando o amor nos acontece

          Rosa, rosa cor-de-rosa tens
          No teu pé a sede d’água
          Não sei que tens, nem donde vens
          Cuida a minha mágoa
          Não sei que tens, nem donde vens
          Cuida bem a minha mágoa

        • 07 Primeira vez
        • Letra de Mário Raínho
          Música de Frederico de Brito (Fado Azenha)

          Primeiro foi um sorriso
          Depois, quase sem aviso,
          É que o beijo aconteceu
          Nesse infinito segundo
          Fora de mim e do mundo
          Minha voz emudeceu!

          Ficaram gestos suspensos
          E os desejos,imensos,
          Como poemas calados,
          Teceram a melodia
          Enquanto a Lua vestia
          Nossos corpos desnudados.

          Duas estrelas no meu peito
          No teu, meu anjo perfeito,
          A voz de búzios escondidos
          Os lençóis, ondas de mar
          Onde fomos naufragar
          Como dois barcos perdidos!

          Os lençóis, ondas de mar
          Onde fomos naufragar
          Todos os nossos sentidos!

        • 08 Não fui eu
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          O Cristo inerte preso à cruz
          A luz da vela que o reduz
          À sombra triste na parede entrecortada
          Dos lábios solta-se, indulgente
          A prece inútil do não crente
          Entre palavras que por si não dizem nada

          Não fui eu
          Não fui eu
          Não deixei a porta aberta
          Não fui eu
          Não fui eu
          Ficou-me a casa deserta

          Há como um fugidio rumor
          De passos que no corredor
          Induzem na minh’alma a dor da esperança vã
          Sinais do tempo a humedecer
          A voz que teima em enrouquecer
          E o corpo dorido pela noite no divã

          Não fui eu…

          Como esta febre me destrói
          Perdido amor, quanto me dói
          Desceste em mim o cruel manto da tristeza
          Em cada noite morro, amor
          Que a solidão faz-se maior
          Mal amanhece e volta o medo que anoiteça

          Não fui eu…

        • 09 Mapa do coração
        • Letra de Nuno Miguel Guedes
          Música de José Blanc (Fado Blanc)

          Não há vocábulo maior
          Nem força do Universo
          P’ra traduzir esse verso
          Que confunde amor e dor

          Albergue de quem é triste
          Fortuna do condenado
          Que vê no espelho do fado
          A alma que em si existe

          Queria poder dizer
          O que essa voz me diz
          Estrela de um dia feliz
          Ou de um doce entristecer

          Fica-me a louca ambição
          O desejo mais ousado
          De poder cantar num fado
          O mapa do coração

        • 10 Aguarda-te ao chegar
        • Letra de Cristina Viana
          Música de Carlos Viana

          Calas-me a voz, voz do olhar
          Sinto que o tempo tarda em chegar
          Distante, ausente, sinto apertar
          O peito ardente por te encontrar

          Na minha alma que anseia urgente
          Pelo momento de ter-te presente
          P’lo infinito, estendo os meus olhos
          Um mar de mil desejos, aguarda-te ao chegar…

          Encho a minha taça vazia
          Com perfumes de poesia
          Bebo a saudade amarga e fria
          E então adormeço ao luar

          Calas-me a voz p’ra lá do tempo
          Estrelas que caem por um lamento
          Espuma na areia, solta no vento
          O meu silêncio, meu sentimento

          Em minha alma que chora vazia
          Por um momento se acende a magia
          P’lo infinito estendo o meu sorriso
          Num mar azul de sonhos
          Acorda-me ao chegar…

          Encho a minha taça ardente
          Com o incenso doce e quente
          Sirvo de beber à alegria
          Que sinto ao ver-te a chegar

          Calas-me a voz…

          Em minha alma que chora vazia
          Por um momento se acende a magia

          P’lo infinito estendo os meus olhos
          Um mar de mil desejos
          Aguarda-te ao chegar

        • 11 Até ao fim do fim
        • Letra e Música de Tozé Brito

          Então está tudo dito, meu amor
          Por favor, não penses mais em mim
          O que é eterno acabou connosco
          E este é o princípio do fim

          Mas sempre que te vir
          Eu vou sofrer
          E sempre que te ouvir
          Eu vou calar
          Cada vez que chegares
          Eu vou fugir
          Mas mesmo assim amor
          Eu vou-te amar
          Até ao fim do fim
          Eu vou-te amar

          Então está dito, meu amor
          Acaba aqui o que não tinha fim
          Para ser eterno tudo o que pensámos
          Precisava que pensasses mais em mim

          Para ti pensar a dois é uma prisão
          Para mim é a única forma de voar
          Precisas de agradar a muita gente
          Eu por mim só a ti queria agradar

        • 12 Fado das horas incertas
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Deixo a porta entreaberta
          Aos medos onde me afoite
          Bate a meia-noite incerta
          De ser mesmo o meio da noite

          Tão redondas são as horas
          Tão inúteis e tão longas
          Minh’alma quanto mais choras
          Mais as horas tu me alongas

          Só a dor trai o sossego
          No rodar desta ansiedade
          Quando à saudade me nego
          Fingindo não ter saudade

        • 13 Vaga, no azul amplo solta
        • Letra de Fernando Pessoa
          Música de Patxi Andión

          Vaga, no azul amplo solta,
          Vai uma nuvem errando.
          O meu passado não volta.
          Não é o que estou chorando.

          Lo que lloro es diferente
          Está en el centro del alma
          Mientras, en cielo silente
          La nube se mece en calma

          E isto lembra uma tristeza
          E a lembrança é que entristece,
          Dou à saudade a riqueza
          De emoção que a hora tece.

          Pero al fin, lo que es llanto
          En esta triste amargura,
          Vive en el cielo mas alto.
          En la nostalgia mas pura.

          No se lo que es, ni consiento / Não sei o que é nem consinto
          Al alma saberlo bien. / À alma que o saiba bem.
          Visto el dolor con que miento / Visto da dor com que minto
          Dolor que en mi alma es ser. / Dor que a minha alma tem

        • 14 Velho anjo
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Tim Ries

          Entre as plumas de um velho anjo
          Roça a sombra na asa ferida
          A inocência das mãos no peito
          E o beijo salva-me a vida

          Entre os astros d’um céu azul
          O cristal de uma voz esquecida
          Descuidados os pés virados ao sul
          Salva-me a vida

          Não há luz que ilumine
          A noite intensa
          Da ausência
          Em mim suspensa
          Que a existência
          Não flui
          Entre os dedos
          Que os meus segredos
          São os temores
          Da minha alma assustada
          Que procura
          Dar-se ao desejo suspenso
          Em ti

        • 15 A sós com a noite
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Alongando-me a sombra sozinha
          A saudade a bater
          Uma dor que ao doer é só minha

          Um desvio inquieto
          Um olhar indiscreto na esquina
          Um rapaz de blusão
          Arrastando pela mão a menina

          Passa um velho a pedir
          Incapaz de sorrir
          Pelos passeios
          Um travesti que quer
          Assumir-se mulher
          Sem receios

          O alarme de um carro
          Um cigarro apagado indulgente
          Um cheiro inusitado
          O semáforo fechado p’ra gente

          Sobe o fado de tom
          E o fadista que é bom, improvisa
          Estão em saldo os sapatos
          Desce o preço dos fatos
          De cor lisa

          Um eléctrico cheio
          Uma voz de premeio, vai chover
          Bate forte a saudade
          Como é grande a vontade de te ver

          A luz que se arredonda
          Alongando-me a sombra sozinha
          A saudade a bater
          Uma dor que ao doer
          É só minha

      2004

      Aconteceu
      Editora: Universal Music
      Suporte: 2 CD

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      Quando em 2003 Ana Moura lançou seu álbum de estreia “Guarda-me a vida na mão” mais do que os rasgados elogios que recebeu da crítica portuguesa e internacional, ficou claro que a sua voz se juntava por direito próprio ao grupo das melhores interpretes de fado e que o imediato interesse demonstrado pelos seus espectáculos dados em vários países da Europa lhe assegurava um futuro de sucesso.
      • Alinhamento
        • 01 Por um dia
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Perguntares como é que eu estou
          Não é quanto baste
          Quereres saber a quem me dou
          Não é quanto baste
          E dizeres para ti morri
          É um estranho contraste
          Nada mais te liga a mim
          Tu nunca me amaste

          Telefonas p’ra saber
          Como vai a vida
          E mais feres sem querer
          Minha alma ferida
          E assim rola a minha dor
          Pássaro ferido
          Que não esquece o teu amor
          Estranho e proibido

          Dizes ser tão actual
          Ficarmos amigos
          No teu jeito natural
          De enfrentares os perigos
          Sem saberes que dentro em mim
          Ainda arde a chama
          Que não perde o seu fulgor
          Que ainda te ama

          Deixa-me só por um dia
          Minha fria companhia

        • 02 Ao poeta perguntei
        • Letra e Música de Alberto Janes

          Ao poeta perguntei
          Como é que os versos assim aparecem
          Disse-me só eu cá não sei
          São coisas que me acontecem

          Sei que nos versos que fiz
          Vivem motivos dos mais diversos
          E também sei que sendo feliz
          Não saberia fazer os versos

          Ó meu amigo não penses que a poesia
          É só a caligrafia num perfeito alinhamento
          As rimas são assim como um coração
          Em que cada pulsação nos recorda sofrimento
          E nos meus versos pode não haver medida
          Mas o que há sempre são coisas da própria vida

          Fiz versos como faz dia
          A luz do sol sempre ao nascer
          Eu fiz os versos porque os fazia
          Sem me lembrar de os fazer

          Como a expressão e os jeitos
          Que p’ra cantar se vão dando à voz
          Todos os versos andam já feitos
          De brincadeira dentro de nós

          E assim amigo
          Já viste que a poesia
          Não é só caligrafia
          São coisas do sentimento

        • 03 O que foi que aconteceu
        • Letra e Música de Tozé Brito

          Aconteceu,
          Eu não estava à tua espera
          E tu não me procuravas,
          Nem sabias quem eu era,
          Eu estava ali
          Só porque tinha que estar,
          E tu chegaste
          Porque tinhas que chegar,
          Olhei para ti, o mundo inteiro parou,
          Nesse instante a minha vida mudou,

          Tudo era para ser eterno
          E tu para sempre meu
          Onde foi que nos perdemos
          O que foi que aconteceu

          Aconteceu,
          Chama-lhe sorte ou azar,
          Eu não estava à tua espera
          E tu voltaste a passar
          Nunca senti
          Bater o meu coração
          Como senti
          Ao sentir a tua mão,
          Na tua boca
          O tempo voltou atrás,
          E se foi louca essa loucura,
          Essa loucura foi paz

          Tudo era para ser eterno
          E tu para sempre meu
          Onde foi que nos perdemos
          O que foi que aconteceu?

        • 04 Ouvi dizer que me esqueceste
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Guitarra triste, ouvi dizer
          Que me esqueceste
          No teu gemido, tão magoado
          Guitarra triste, perdi a vez
          E tu perdeste
          O céu oculto onde anoitece
          E nasce o fado

          O meu peito se apequena
          Como se a alma atormentada
          Entre as cordas vibrando
          Se quisesse esconder
          Fecho os olhos e triste
          Sigo a voz desesperada
          Que como eu está gritando
          Toda a dor de viver

          Não vou querer repartir
          Com mais ninguém a solidão
          Escondida de mim
          No teu triste trinado
          O meu traído amor
          Calou-me a dor dessa traição
          Foi por isso que enfim
          Nunca mais cantei fado

        • 05 Fado de Pessoa
        • Letra e Música de João Pedro Pais

          Um fado pessoano
          Num bairro de Lisboa
          Um poema lusitano
          No dizer de Camões
          Uma gaivota em terra
          Um sujeito predicado
          Um porto esquecido
          Um barco ancorado

          Leva-as o vento
          Meras palavras
          Guarda no peito
          A ingenuidade

          Figura de estilo
          Tua voz na proa
          De um verso já gasto
          No olhar de Pessoa

          Uma frase perfeita
          E um beijo prolongado
          Uma porta aberta
          Traz odor a pecado
          Uma guitarra com garra
          Ouvida entre os umbrais
          Numa cidade garrida
          Com vista para o cais

        • 06 Amor de uma noite
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Carlos Viana

          Meu amor duma noite
          Que poderás fazer de mim agora
          Se o meu pecado é açoite
          A açoitar-me noite fora
          Amor meu de quem sou eu agora

          Meu amor que sublimado
          É este amor que é feito por amor
          Perfeito e emancipado
          Quando alcançamos a dor
          Dispersa no mar de quem faz amor

          Ressuscito nos teus braços
          Se me dizes foi tão bom
          Alimenta-me o desejo
          Meu amor como é bom
          Não há tempo nem há espaço
          Quando a dois tudo é bom
          E até mesmo o próprio eu
          Não existe, quando é bom

          Meu amor realizado
          Nascida flor entre dois seres aflitos
          Pedaços despedaçados
          Que resolvemos convictos

          Senhora
          Bendita mãe dos aflitos
          Ressuscito nos teus braços
          Se me dizes foi tão bom
          Alimenta-me o desejo
          Meu amor como é bom
          Não há tempo nem há espaço
          Quando a dois tudo é bom
          E até mesmo o próprio eu
          Não existe, quando é bom

        • 07 Eu quero
        • Letra e Música de Júlio Vieitas

          Eu quero
          Eu sei o que quero
          A vida p’ra mim é assim
          Eu quero, eu sei onde vou
          Eu quero
          Mas não quero nem tolero
          Que possas julgar de mim
          Tudo aquilo que eu não sou
          Não quero

          Quero seguir o caminho da verdade
          Deus queira que este amor seja sincero
          Se for caminho errado
          Será mais um pecado
          E amor por caridade
          Não quero

          Escuta, medita, tem calma
          Eu quero chamar-te à razão
          Não quero desdém nem ciúme
          Não quero
          O fogo que tens na alma
          Faz queimar meu coração
          Quero apagar esse lume
          Eu quero

        • 08 Bailinho à portuguesa
        • Letra e Música de Alberto Janes

          Num bailinho à portuguesa
          Com o harmónio o zambuba mais os pratos
          Tem que se ter a certeza, de ter atado os sapatos
          Se o mestre manda virar
          Todo o rancho num só pé logo girou
          E sem dizer nada ao par
          Quando um vira outro virou

          Vai de roda agora
          Cada qual com o seu par
          Ai que vai pela porta fora
          Ai quem vier p’ra namorar
          Cada um com a sua
          Que ninguém me troque o passo
          Ai que vai para o olho da rua
          Quem falta aqui ao compasso

          Há alegria e respeito
          No bailinho cá das nossas romarias
          Parte-se a cara ao sujeito
          Por pensar em avarias
          Às vezes o mestre pita
          Para chamar a atenção cá dos rapazes
          E há um tipo a quem grita
          Ó Chico olha o que fazes

        • 09 Creio
        • Letra de Natália Correia
          Música de Jorge Fernando

          Creio nos anjos que andam pelo mundo
          Creio na deusa com olhos de diamantes
          Creio em amores lunares com piano ao fundo,
          Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

          Creio num engenho que falta mais fecundo
          De harmonizar as partes dissonantes,
          Creio que tudo é eterno num segundo,
          Creio num céu futuro que houve dantes,

          Creio nos deuses de um astral mais puro,
          Na flor humilde que se encosta ao muro
          Creio na carne que enfeitiça o além

          Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
          Na ocupação do mundo pelas rosas,
          Creio que o amor tem asas de ouro. Amén.

        • 10 Através do teu coração
        • Letra de Sophia de Mello Breyner
          Música de Arrigo Cappelletti

          Através do teu coração
          Passou um barco
          Que não pára de seguir
          Sem ti o seu caminho

        • 11 Como o tempo corre
        • Letra de Fernando Mata
          Música de Fado meia noite

          No céu de estrelas lavado
          Pelo luar que beija o chão
          Nasce um cinzento azulado
          Que me aquece o coração

          Como o tempo seca o pranto
          Adormece a própria dor
          E vejo com desencanto
          Passar o tempo do amor

          No seu correr tudo leva
          Na fúria da tempestade
          Se parte nunca mais chega
          Chega em seu lugar saudade

          Meu Deus como o tempo corre
          No tempo do meu viver
          Parece que o tempo morre
          Mesmo antes de nascer

        • 11 Hoje tudo me entristece
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Fado Franklin

          Hoje tudo é triste em mim
          Como se toda a tristeza
          Emanasse do meu peito
          Breve presságio do fim
          Que me sustenta a certeza
          Do coração já desfeito

          Hoje tudo me entristece
          Tudo ensombra o meu olhar
          Mais que ansioso do teu
          Mas se em sorte me coubesse
          O coração resgatar
          Que em teus olhos se perdeu

          Hoje a tristeza não deixa
          De afundar seus longos traços
          No meu rosto descuidado
          Pois sem uma simples queixa
          Eu vou voltar aos teus braços
          P’ra se cumprir nosso fado

        • 13 Passos na rua
        • Letra de Carlos Manuel
          Música de Pintadinho

          Passos na rua, quem passa
          Quem passa traz o passado
          Talvez seja uma ameaça
          Ou o silêncio de fado

          Passos na rua quem é
          É um sonho magoado
          É a ira da maré
          É a morte dum pecado

          Passos na rua ilusão
          De quem quer ouvir tais passos
          Talvez seja um coração
          A gritar os seus cansaços

          Passos na rua sentença
          Dum fado por inventar
          Passos na rua descrença
          Deixai os passos passar

        • 14 Mouraria
        • Letra de Mª Helena B. Guerreiro
          Música de Jaime Santos

          Porque será que não canto
          Como canta a cotovia
          O meu cantar nem é pranto
          É gemer duma agonia

          Chora assim meu coração
          Tens razão para o fazer
          Matou a vida a ilusão
          Que não tornas a viver

          Sofrer fez-me diferente
          Dizes tu e tens razão
          Pois não é imponentemente
          Que se tem um coração

          Ando a cumprir uma pena
          Mas crime não cometi
          Só sei que ela me condena
          A viver longe de ti

        • 15 Fado menor
        • Letra de João Linhares Barbosa
          Música de José Alfredo dos Santos Moreira

          Os meus olhos são dois círios
          Dando luz triste ao meu rosto
          Marcados pelos martírios
          Da saudade e do desgosto

          Quando oiço bater trindades
          E a tarde já vai no fim
          Eu peço às tuas saudades
          Um padre nosso por mim

          Mas não sabes fazer preces
          Não tens saudade nem pranto
          Porque é que tu me aborreces
          Porque é que eu te quero tanto

          Mas para meu desespero
          Como as nuvens que andam altas
          Todos os dias te espero
          Todos os dias me faltas

        • 16 Dentro da tempestade
        • Letra de Tiago Bettencourt
          Música de Marques do Amaral

          Fico presa na tempestade
          Onde não durmo comigo
          Há restos de verdade
          A que a dor tirou sentido

          Caída entre os espaços
          Do meu corpo destruído
          Já não há restos de verdade
          E a dor perdeu sentido

          Deixei armas dos meus braços
          Larguei roupas que vesti
          Deixei ruas onde as pedras
          Tatuaram os meus passos

          No mar de mãos turvas
          Nadavas transparente
          Encontramo-nos num gesto
          Inteiro e indiferente

          Choramos como quem nasce
          Escorrendo a saudade
          Vens no Sol de madrugada
          Como a mão na tempestade

        • 17 Cumplicidade
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Fado Alberto

          Quando chamo por ti mais ninguém ouve
          A mais ninguém é dado me entender
          És o amor em mim que se dissolve
          Na água da minha alma a envelhecer

          Sei que o meu pensamento tem uma voz
          Que dentro do teu ser se faz ouvir
          Assim quando te penso somos nós
          Na cumplicidade amante de existir

          Então d’olhos fechados num momento
          Desfaço esta lonjura entre nós
          Por ti mil vezes chamo em pensamento
          Em ti mil vezes ouves minha voz

        • 18 Ó meu amigo João
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Fado corrido

          Ó meu amigo João
          Em que terras te perdeste
          Se por nada lá morreste
          Meu amigo meu irmão

          De nascença duvidosa
          Proibiram tua infância
          Transformaram-te em distância
          Como braços de alcançar

          Foste folha a flutuar
          Arrastada pela corrente
          E o teu sangue foi semente
          Dos cifrões doutro lugar

          Gostavas de ouvir cantar
          As modas da nossa terra
          E a verdade que se encerra
          No seu jeito popular

          Teu corpo de tudo dar
          Corre nas veias do mundo
          Imenso fértil fecundo
          Com força de terra e mar

          Ponho em ti o recordar
          Na agrura da tua morte
          Por sobre o sangue a gritar
          Que não foi azar nem sorte

          E a força do vento norte
          Levou teu grito na mão
          Meu amigo meu irmão
          Quem forçou a tua sorte

        • 19 Venho falar dos meus medos
        • Letra de António Laranjeira
          Música de Fado Acácio

          Senhora eu tenho fé
          De encontrar a minha luz
          Nesta imensa escuridão
          Venho falar dos meus medos
          São vossos os meus segredos
          Que eu partilho em confissão

          Senhora há tanto tempo
          Que me assaltam tantas dúvidas
          Não posso viver assim
          Um turbilhão de incertezas
          Parecem velas acesas
          A queimar dentro de mim

          Será senhora o destino
          Que me estava reservado
          Desde o meu primeiro dia
          Que faço ao meu coração
          Sofrendo de solidão
          Na dor que não me alivia

        • 20 Nada que devas saber
        • Letra de Miguel Guedes
          Música de Francisco Viana

          Vou usar o teu silêncio
          Não o vais querer ouvir
          A desfazer-me os sonhos
          Vou devolver-to e partir

          Porque me esgotas num jogo
          Naquele que dá as cartas
          Não colori a avalanche
          A negro e sombra, cores gastas

          Se eu morro na tua escolha
          Como me deixas fugir
          Amarro sonhos e vou
          Para onde nunca quis ir

          Amar-te assim, querendo tanto
          Que fosse igual o teu querer
          Faço de conta, por ti
          Já nada que devas saber

      2003

      Guarda-me a Vida na Mão
      Editora: Universal Music
      Suporte: CD

      Muito bem recebido pelo público e pela crítica o primeiro disco revelava uma carreira promissora. Com produção e arranjos de Jorge Fernando e co-produção de Fernando Nunes, “Guarda-me a vida nas mãos” conta com Mário Pacheco na guitarra portuguesa, Jorge Fernando na viola e Filipe Larson na viola baixo.

      • Alinhamento
        • 01 Guarda-me a vida na mão
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Raul Ferrão (Fado Carriche)

          Guarda-me a vida na mão
          Guarda-me os olhos nos teus
          Dentro desta solidão
          Nem há presença de Deus
          Como a queda dum sorriso
          P´lo canto triste da boca
          Neste vazio impreciso
          Só a loucura me toca
          Esperei por ti, todas as horas
          Frágil sombra olhando o cais
          Mas mais triste que as demoras
          É saber que não vens mais

        • 02 Desculpa (seria quase voz)
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de José Pereira

          Desculpa de não ser como tu queres
          De ser o lado errado entre nós
          Aperta-me em teus braços de mulher
          Disseste-o num soluço quase voz
          Desculpa não ser mais p´ra te oferecer
          No tudo que te dou e que é tão pouco
          Repousa-me em teus braços de mulher
          Disseste tu num tom velado e rouco
          Desculpa a pequenez que me apequena
          Aos teus olhos adultos penetrantes
          Acolhe com piedade a alma enferma
          Disseste à flor d´uns lábios delirantes
          Desculpa por te olhar aquém do pranto
          Que dos meus olhos corre ao estarmos sós
          Desculpa por ainda te amar tanto
          Disseste-o num soluço quase voz

        • 03 Nasci p’ra ser ignorante
        • Letra de Sebastião da Gama
          Música de Carlos Gonçalves

          Nasci p´ra ser ignorante
          Mas os parentes teimaram
          E dali não arrancaram
          Em fazer de mim estudante
          Que remédio obedeci
          Há já 3 lustros que estudo
          Aprender aprendi tudo
          Mas tudo desaprendi
          Perdi o nome às estrelas
          Aos nossos rios e ao de fora
          Confundo fauna com flora
          Atrapalham-me as parcelas
          Mas passo dias inteiros
          A ver o rio a passar
          Com aves e ondas do mar
          Tenho amores verdadeiros
          Rebrilha sempre uma estrela
          Por sobre meu parapeito
          Pois não sou eu que me deito
          Sem ter falado com ela
          Conheço mais de mil flores
          Elas conhecem-me a mim
          Só não sei como em latim
          As crismaram os doutores
          Enquanto as águas correrem
          Não sentirei calafrios
          Que flores aves e rios
          Ignorante é quem me querem

        • 04 Sou do fado, sou fadista
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Sei, que a alma se ajeitou
          Tomou a voz nas mãos
          Rodopiou no peito
          E fez-se ouvir no ar
          E eu fechei meus olhos
          Tristes só por querer
          Cantar , cantar
          E uma voz me canta assim baixinho
          E uma voz me encanta assim baixinho
          Sou do fado
          Sou do fado
          Eu sou fadista
          Sei que o ser se dá assim
          Às margens onde o canto
          Recolhe em seu regaço
          As almas num só fado
          E eu prendi-me a voz
          Como a guitarra ao seu
          Trinado, trinado
          E uma voz me canta assim baixinho
          E uma voz me encanta assim baixinho
          Sou do fado
          Sou do fado
          Eu sou fadista

        • 05 Vou dar de beber à dor
        • Letra e Música de Alberto Janes

          Foi no domingo passado que passei
          À casa onde vivia a Mariquinhas
          Mas está tudo tão mudado
          Que não vi em nenhum lado
          As tais janelas que tinham tabuínhas
          Do rés-do-chão ao telhado
          Não vi nada , nada, nada
          Que pudesse recordar-me a Mariquinhas
          E há um vidro pegado e azulado
          Onde via as tabuínhas
          Entrei e onde era a sala agora está
          Á secretária um sujeito que é lingrinhas
          Mas não vi colchas com barra
          Nem viola nem guitarra
          Nem espreitadelas furtivas das vizinhas
          O tempo cravou a garra
          Na alma daquela casa
          Onde às vezes petiscávamos sardinhas
          Quando em noites de guitarra e de farra
          Estava alegre a Mariquinhas
          As janelas tão garridas que ficavam
          Com cortinados de chita as pintinhas
          Perderam de todo a graça
          Porque é hoje uma vidraça
          Com cercaduras de lata às voltinhas
          E lá p´ra dentro quem passa
          Hoje é p´ra ir aos penhores
          Entregar ao usurário umas coisinhas
          Pois chega a esta desgraça toda a graça
          Da casa da Mariquinhas
          Para terem feito da casa o que fizeram
          Melhor fora que a mandassem p´rás alminhas
          Pois ser casa de penhor
          O que foi viver de amor
          É idéia que não cabe cá nas minhas
          Recordações do calor
          E das saudades o gosto
          Eu vou procurar esquecer
          Numa ginginhas
          Pois dar de beber à dor é o melhor
          Já dizia a Mariquinhas

        • 06 Preso entre o sono e o sonho
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Fontes Rocha

          Uma flor não te dá nome
          Não há jardim que te cresça
          Vou saciar minha fome
          Quando em ti meu olhar desça
          Um silêncio que te chama
          E os olhos num longo traço
          Fecham-se à luz que derrama
          Sobre a cama que eu desfaço
          Um livro espera tristonho
          Entreaberto a meu lado
          Preso entre o sono e o sonho
          Nem aberto nem fechado
          Não há caminho que tome
          Não há voz que em mim conheça
          Que chegue p´ra te dar nome
          Não há flor que te pareça

        • 07 Não hesitava um segundo
        • Letra e Música de Tozé Brito

          Entre os teus olhos azuis
          E um quadro azul de Picasso
          Entre o som da tua voz
          E o som de qualquer compasso
          Entre o teu anel de prata
          E todo o ouro do mundo
          Escolheria o que é teu
          Não hesitava um segundo
          Quantas ondas há no mar
          Quantas estrelas no céu
          Tantas quantas nos meus sonhos
          Foste minha e eu fui teu
          Entre o teu anel de prata
          E todo o ouro do mundo
          Escolheria o que é teu
          Não hesitava um segundo
          Entre o céu da tua boca
          E a luz do céu de Lisboa
          Entre uma palavra tua
          E um poema de Pessoa
          Entre a cor do teu sorriso
          E todo o brilho do mundo
          Escolheria o que é teu
          Não hesitava um segundo
          Entre o teu anel de prata
          E todo o ouro do mundo
          Escolheria o que é teu
          Não hesitava um segundo

        • 08 Por que teimas nesta dor
        • Letra de José Luis Gordo
          Música de Carlos Gomes

          Por que teimas nesta dor
          Por que não lhe queres dar fim
          Tu sabes que o nosso amor
          Não morre dentro de mim
          Não te dou beijos fingidos
          Que a boca sabe a verdade
          Os teus lábios proibidos
          Prende a minha alma à saudade
          Mesmo que ao beijar não sintas
          O que a tua boca diz
          Meu amor por mais que mintas
          Nos teus beijos sou feliz
          Meu amor na tua boca,
          Há um silêncio que é nosso
          Um travo de coisa pouca
          E amar-te mais eu não posso

        • 09 Meu triste, triste amor
        • Letra de Jorge Fernando
          Música de Alfredo Marceneiro

          Meu triste, triste amor
          Das noites inocentes
          Que o amor ao possuir-me
          Inocentiza-me o ser
          Por sobre a minha pele
          As tuas mãos reluzentes
          Afadigam-se no corpo
          P´ra melhor o conhecer
          Meu triste, triste amor
          De anseios prematuros
          De ventos circundantes
          Incentivados por nós
          O amor se faz ouvir
          Por entre beijos seguros
          Num sussurro insolente
          Que não nos chega a ser voz
          Meu triste, triste amor
          De inuzitada memória
          De incontadas promessas
          Em tímido pudor
          Somente a nossa voz
          Poderá contar a história
          Do quanto nos amámos
          Meu triste, triste amor

        • 10 Endeixa
        • Letra de Camões
          Música de Carlos Gonçalves

          Pois meus olhos não deixam de chorar
          Tristezas que não cansam de cansar-me
          Pois não abranda o fogo em que abrazar-me
          Pode quem eu jamais pude abrandar
          Não canse o cego amor de me guiar
          A parte donde não saiba tornar-me
          Nem deixe o mundo todo de escutar-me
          Enquanto me a voz fraca não deixar
          E se em montes, em rios, ou em vales
          Piedade mora ou dentro mora amor
          Em feras, aves, plantas , pedras ,águas
          Ouçam a longa história de meus males
          E curem sua dor com minha dor
          Que grandes mágoas podem curar mágoas

        • 11 Quem vai ao fado
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Quem vai ao fado meu amor
          Quem vai ao fado
          Leva no peito algo de estranho a latejar
          Quem vai ao fado meu amor
          Quem vai ao fado
          Sente que a alma ganha asas quer voar
          Sempre que entristeço e a nostalgia cai em mim
          Ouço de tão longe estranha voz por mim chamar
          É um canto doce mavioso ou coisa assim
          Logo a minha alma faz-se voz e quer cantar
          Bálsamo bendito a esta terra quis Deus dar
          Mais vale cantar do que chorar
          Sempre que radioso o coração se agita em mim
          Num impulso alegre a felicidade vem morar
          Abandono a voz no Mouraria porque assim
          Sei que o coração quer à guitarra forma dar
          Bálsamo bendito a esta terra quis Deus dar
          Mais vale cantar do que chorar

        • 12 Flor de lua
        • Letra de Amália Rodrigues
          Música de Carlos Gonçalves

          Campo chão
          Torna a dor
          Minha dor
          Solidão
          Vai no vento
          A passar
          Um lamento
          A gritar
          Dó ré mi
          Mi fá sol
          Dó ré mi
          chora a fonte
          Girasol
          reza o monte
          velho cardo
          esguio nardo
          flor de lua
          mi fá sol
          girassol
          eu sou tua
          torna flor
          minha flor
          campo chão
          torna a dor
          minha dor
          solidão
          grita o mar
          geme o vento
          teu olhar
          meu tormento
          chora a lua
          flor dourada
          madressilva
          madrugada
          canta a lua
          seminua
          flor mimosa
          sargaçal
          roseiral
          minha rosa
          chora a fonte
          reza o monte
          branca asa
          canta a flor
          chora a flor
          campa rasa

        • 13 Guitarra
        • Letra e Música de Jorge Fernando

          Ó guitarra guitarra , por favor
          Abres-me o peito com chave de dor
          Guitarra emudece
          O som que me entristece
          Vertendo sobre mim a nostalgia
          Ò guitarra, guitarra, vais ter dó
          Não rasgues o silêncio ao veres-me só
          Guitarra o teu gemer
          Mais dor me vem fazer
          Como o vento a afagar a noite fria
          Guitarra emudece, o som que me entristece
          Pois se te ouço chorar, eu também choro
          Maior do que a madeira em que te talham
          Guitarra é o teu mundo onde moro
          Ò guitarra guitarra, por favor
          Abres-me o peito com chave de dor
          Ò guitarra guitarra fica muda
          Sem ti, talvez minh´alma inda se iluda
          Vais ter que responder
          Se em mim tudo morrer
          Ao peso desta enorme nostalgia

        • 14 Às vezes
        • Letra e Música de Pedro Ayres Magalhães

          Às vezes
          Quando te peço
          Essas coisas que enfim
          Eu não mereço
          Fico a olhar para ti
          E agradeço
          Ter o que te pedi
          Sempre que peço
          E olha
          Às vezes penso
          Penso que tu me queres
          Que eu te pertenço
          Distraída de mim
          Nada mais peço
          Tenho do teu amor
          Tudo que eu quero
          Aceita, este pensar
          Desperta tudo o que eu sou
          Regresso ao teu amor
          Depressa, a certeza chegou
          Adoras
          Amamos
          Demoras
          Enganos
          E ainda vou ser feliz
          Nos braços do meu amor

        • 15 Lavava no rio lavava
        • Letra de Amália Rodrigues
          Música de Fontes Rocha

          Lavava no rio lavava
          Gelava-me o frio gelava
          Quando ia ao rio lavar
          Passava fome passava
          Chorava também chorava
          Ao ver minha mãe chorar
          Cantava também cantava
          Sonhava também sonhava
          E na minha fantasia
          Tais coisas fantasiava
          Que esquecia que chorava
          Que esquecia que sofria
          Já não vou ao rio lavar
          Mas continuo a chorar
          Já não sonho o que sonhava
          Se já não lavo no rio
          Por que me gela este frio
          Mais do que então me gelava
          Ai minha mãe minha mãe
          Que saudades desse bem
          Do mal que então conhecia
          Dessa fome que eu passava
          Do frio que me gelava
          E da minha fantasia
          Já não temos fome mãe
          Mas já não temos também
          O desejo de a não ter
          Já não sabemos sonhar
          Já andamos a enganar
          O desejo de morrer