2011
Ana Moura (Box)
Editora: Universal Music
Suporte: 4 CD + DVD
Ana Moura tem a sua discografia completa editada numa Box. Uma boa oportunidade de obter os multi-galardoados “Aconteceu”, “Guarda-me a Vida na Mão”, “Para Além da Saudade”, “Leva-me aos Fados” e o DVD “Coliseu”.
No momento em que a Ana Moura editou o seu segundo álbum , “Aconteceu” (2004), era já uma realidade o seu êxito em França, Holanda e Itália preparando igualmente espectáculos nos EUA, nomeadamente no Carnegie Hall de Nova Iorque, que a levaram à consagração definitiva nesses países, começando a abrir-lhe portas para uma sólida carreira internacional. Em Portugal, e dada a qualidade deste álbum, começamos a assistir à consolidação da sua ainda curta mas sólida carreira, feita de passos seguros. “Aconteceu” é agora reeditado em Portugal com a capa usada nas edições internacionais.
Este disco conta com as participações e composições dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, José Mário Branco, Mário Raínho, Tózé Brito, Nuno Miguel Guedes e Jorge Fernando. É também a primeira vez que a fadista se aventura na composição com o tema ‘Que Dizer de Nós’. “Leva-me aos Fados” trouxe a Ana Moura uma extensa digressão internacional que leva a fadista aos quatro cantos do planeta para actuar em algumas das mais prestigiadas salas internacionais. Mantendo paralelamente a digressão em Portugal, foi com este disco que Ana voltou a subir ao palco dos Coliseus para dois concertos especiais em que teve como convidada a Frankfurt Radio Bigband.
- Alinhamento
- 01 Leva-me aos fados
- 02 Como uma nuvem no céu
- 03 Por minha conta
- 04 A Penumbra
- 05 Caso arrumado
- 06 Talvez depois
- 07 Rumo ao Sul
- 08 Fado das águas
- 09 Fado vestido de fado
- 10 Crítica da razão pura
- 11 De quando em vez
- 12 Fado das mágoas
- 13 Águas Passadas
- 14 Que dizer de nós
- 15 Não é um fado normal
Letra e Música de Jorge Fernando
Chegaste a horas
como é costume
bebe um café
que eu desabafo o meu queixume
Na minha vida nada dá certo
mais um amor que de findar
me está tão perto
Leva-me aos fados onde eu sossego
as desventuras do amor a quem me entrego
Leva-me aos fados que eu vou perder-me
Nas velhas quadras que parecem conhecer-me
Dá-me um conselho que o teu bom senso
é o aconchego de que há tempos não dispenso.
caí de novo mas quero erguer-me
olhar-me ao espelho e tentar reconhecer-me
Letra e Música de Tozé Brito
Dizem as crenças, as leis, as sentenças
lê-se em anúncios, na palma da mão
como uma nuvem no céu
o nosso amor não tem solução
dizem os sábios, os lábios, os olhos
vem em jornais e revistas que li
como uma nuvem no céu
o nosso amor já não passa daqui
Mentira, como uma nuvem no céu
Ou como um rio que corre para o mar
Também eu corro para ti
Isso nunca irá mudar
Dizem os livros, os astros, a rádio
Vem nos horóscopos, nos editais
Como uma nuvem no céu
O nosso amor já não dura mais
Dizem as folhas do chá e as notícias
Dizem as fontes bem informadas
Como uma nuvem nocéu
O nosso amor tem as horas contadas
Dizem os sonhos, as lendas, a história
Vem num artigo, saiu num decreto
Como uma nuvem no céu
O nosso amor carece de afecto
Dizem os homens, as fadas, os fados
E vem o código da nossa estrada
Como uma nuvem no céu
O nosso amor não vai dar em nada
Letra e Música de Jorge Fernando
Fiquei por minha conta
Mercê dum passo incerto
A culpa em mim se apronta
Ronda-me a alma por perto
Fiquei num olhar fundo
Perdido não sei onde
Só sei ceder-me ao mundo
Onde o meu ser se esconde
A noite é fria
Nebulosa bruma
Que me seguia
A parte nenhuma
Tudo é vazio
Na mão fechada
Cerra-se o frio
Não deu por nada
Fiquei ao fim de tudo
Num tudo sem ter fim
E a voz dum grito mudo
Anseia saber de mim
Letra e Música de Jorge Fernando
???????Uma noite em claro estou, eu não sei rezar
Pensamento inútil vou tentar-me anular
Fiquei triste, triste sou, eu não sei rezar
Vem que a alma se afunda
Nesta imensa penumbra
Que a noite me está morrendo
Que a noite me está morrendo
Minha noite um brilho tem, um sinal plebeu
Não tenho malícia mãe, o discuido é teu
O amor não se nega nem a quem nega o seu
Uma noite em claro estou a saber de mim
À flor da minh’alma sou princípio do fim
Quem me prendeu, quem me amou
Não cuidou de mim
Letra de Manuela de Freitas
Música de Pedro Rodrigues
Não te via há quase um mês
Chegaste mais uma vez
Vinhas bem acompanhado
Sentaste-te à minha mesa
Como quem tem a certeza
que somos caso arrumado
Ela não me queria ouvir
Mas tu pediste a sorrir
O nosso fado preferido
Fiz-te a vontade, cantei
E quando à mesa voltei
Ela já tinha saído
Não é a primeira vez
Que começamos a três
Eu vou cantar e depois
O nosso fado que eu canto
É sempre remédio santo
Acabamos só nós dois
Eu sei que tu vais voltar
P’ra de novo eu te livrar
De um caso sem solução
Vou cantar o nosso fado
Fica o teu caso arrumado
O nosso caso é que não
Letra de Jorge Fernando
Música de Custódio Castelo
Deixei de mim as frases que trocámos
Os beijos e o tédio de os não ter
Sem querer nós nops cegámos
Sem querermos ver
As roupas e os livros não os trouxe
Que se envelheçam cobertos de pó
Por querermos que assim fosse
Deixo-te só
Recuso a sombra, triste véu sobre minh’alma
Quero-me longe e sem temores fujo de mim
Esmorece o dia, cai a noite e não se acalma
O querer saber qual a razão de ver-me assim
Não sei ser razoável nem te espero
No tempo que pediste p’ra nós dois
Amar-te assim não quero
Talvez depois
Marcaste em mim a dúvida cinzenta
Do sentimento que te unia a mim
Sabê-lo não me alenta
Melhor o fim
Palavras, só palavras que como alento
Seduzem a minh’alma a querer-te tanto
Atrais-me o pensamento como um quebranto
Letra de Jorge Fernando
Música de Carlos Viana
Estou na estrada p’ra onde eu já não quero ir
No escritório esta tarde foi tudo p’ra me deprimir
A buzina apressada de um carro que me quer passar
Na portagem um rosto indiferente diz-me para pagar
Rumo ao sul, sem amor, devagar
O meu sonho faz-se ao mar
Seu amor rumo ao sul
O meu céu perdeu o azul
Volto as costas às luzes brilhantes da cidade mãe
Sou sombra impiedosa do apego a quem já não se tem
Sei que ao fim desta estrada há uma casa que suponho ter
E a vontade indomável que teima em me querer perder
Letra de Mário Raínho
Música de Alfredo Marceneiro
Dentro do rio que corre
No leito da minha voz
Há uma saudade que morre
Dentro do rio que corre
Em lágrimas até á foz
Dentro do mar mais profundo
Reflectido em meu olhar
Não pára o pranto um segundo
Dentro do mar mais profundo
No meu rosto a desmaiar
Dentro das águas nascentes
Das fontes que a alma encanta
Num crescendo de correntes,
Dentro das águas nascentes
Correm mágoas p’la garganta
Dentro da chuva caída
Como franjas do meu fado
Eu encharco a minha vida
Dentro da chuva caída
Meu canto é d’aguas lavado
Eu encharco a minha vida
Dentro da chuva caída
Como franjas do meu fado
Letra de Fernando Maurício e Mário Raínho
Música de Tradicional
Se fado é miséria e dor
Se é ciúme, se é pecado,
Que serás tu, meu amor,
Todo vestido de fado
Talvez sejas o quebranto
Meu pranto, em horas tardias,
Rosário de avé-marias
Que rezo quanto te canto
Pois fico neste entretanto,
Dum acorde desenhado,
Porque te chamo num fado,
Te canto com tal fervor,
Se fado é tristeza e dor
Se é ciúme se é pecado
Os meus sentidos dispersos,
Não me conseguem dizer
Razões da minh’alma ser
Refúgio de tantos versos
Mistério dos universos
Pra onde foi atirado
Este desejo, rogado
Na minha voz em clamor,
Que serás tu, meu amor,
Todo vestido de fado
Letra de Nuno Miguel Guedes
Música de Tradicional
Porque quiseste dar nome
Ao gesto que não se diz
Ao jeito de ser feliz
Porque quiseste dar nome?
De que te vale saber
De que é feita uma paixão
As estradas de um coração
De que te vale saber?
Porque quiseste pensar
Aquilo que apenas se sente
O que a alma luz e gente
Porque quiseste pensar?
Diz onde está a razão?
Daquilo que não tem juízo
Que junta o choro e o riso
Diz onde está a razão
Porque quiseste entender
O fogo que fomos nós?
Meu amor, se estamos sós
Foi porque quiseste entender
Letra de Mário Raínho
Música de João Maria dos Anjos
De quando em vez lá te entregas
Nesse sim, em que te negas,
Ou se não, que me é tanto
Não te pergunto os porquês
Deste amar, de quando em vez,
Ou talvez de vez em quando
Quase sempre de fugida,
Como criannça escondida,
Nosso amor brinca com o fogo
Se queremos dizer adeus,
Porque dizemos meu Deus
Simplesmente um até logo
E o enleio continua
À mercê de qualquer lua
Que nos comanda os sentidos
E a paixão que não tem siso,
Deixa-nos sem pré-aviso
De corpo e alma despidos
Por teimosia, ou loucura,
Algemamos a ventura,
Do amor, em nós, reencarnando
Prefiro, como tu não vês,
Amar-te de qundo em vez
Ou talvez de vez em quando
Letra de Jorge Fernando
Música de José Manuel David
As mágoas não me doem, não são mágoas
No plano da minh’alma já não moram
Se as águas se evaporam, não são águas
São etéreas lembranças do que foram
O pranto que então frágil não contive
Do cimo dos meus olhos se lançou
Que de tanto chorar não mais o tive
Nem a última das lágrimas me ficou
Não deitei fora as dores, mas hoje trago-as
À beira do meu ser de ti deserto
O que vês nos meus olhos não são mágoas
São apenas dum amor que não deu certo
Letra de Jorge Fernando
Música de José Mário Branco
Sei que os dias hão-de dar-me a paz que eu quero
Sei que as horas hão-de ser menos pesadas
E que as noites em secreto desespero
Hão-de ser recordações, águas passadas
Sei que tudo tem um fim, e o fim de tudo
É o tudo que me resta por viver
E o teu olhar inquieto, onde me ilude
É o desvio da minh’alma a se perder
Sei que sempre que te sei em outros braços
Há um punhal a atravessar todo o meu ser
Os meus olhos a alongarem-se num traço
São o espelho da minh’alma a não querer ver
Sei no entanto, que há uma luz no horizonte
Que antevejo, entre lágrimas resignadas
Que esta história, seja a história onde se conte
O que um dia em mim serão águas passadas
Letra de Jorge Fernando
Música de Ana Moura
A sombra ensombra-me os dias
Num divagar lento
As mãos dobradas vazias
Por sobre o próprio lamento
Que dizer de nós amor?
Sentam-se as horas
Rodopiam os segundos
Na perseguição de nós
Como abismo escuro e fundo
Que atrai-me assim o ser e a voz
Não é mais do que um perdido
Lamento atroz
Perdidos olhos agueiam
Olham sem ver, cegos
Redondas frases anseiam
Fazer-se voz eu nego
Que dizer de nós amor?
Tudo se oculta
Tudo é estreito e estreita em nós
A margem da culpa
Como a sombra a que me dei
Que atrai-me assim o ser e a voz
Não é mais do que um pedido
Lamento atroz
Letra e Música de Amélia Muge
Olhas p’ra mim
Com esse ar reservado
A estoirar pelas costuras
Nem sei se estou em Lisboa
Será que é Tóquio ou Berlim?
Tu não me olhes assim!
Porque o teu olhar tem ópio
Pitadas de gergelim
Mas se isto é fado
Ponho o gergelim de lado
Vou buscar o alecrim
E tu sempre a olhar p’ra mim
Como se alecrim aos molhos
Atraíssem os teus olhos
Não tenho nada com isso
Alguém que quebre este enguiço
Que eu não respondo por mim
E já estou, quase a trocar
O mal pelo bem, e o bem pelo mal
Se isto é fado
Não é uma fado normal
A trocar, o mal pelo bem e o bem pelo mal
Não é um fado normal
Vou por lugares
Nunca dantes visitados
E há que ter alguns cuidados
Porque bússola não há
E baralham-se os sentidos
Se andamos ao Deus-dará
Sem sentinelas nos olhos
Vou confiar no ouvido
E nada vai estar perdido
Mas se isto é fado
Vou entristecer o quadro
P’ra tom de cinza acordado
Que eu não quero exagerar
No meio do nevoeiro
Mas se isto é fado
Vou entristecer o quadro
Que eu não quero exagerar
No meio do nevoeiro
Teimo em ver o teu olhar
Que não ser derradeiro
Alguma coisa se solta
Que talvez não tenha volta
- Alinhamento
- 01 Lavava no rio lavava
- 02 Os meus olhos são dois círios
- 03 Ó meu amigo João
- 04 Sou do fado, sou fadista
- 05 Fado das horas incertas
- 06 O que foi que aconteceu
- 07 Venho falar dos meus medos
- 08 Porque teimas nesta dor
- 09 Divino fado
- 10 Meditando / Variações em Lá
- 11 Creio
- 12 Boa noite solidão
- 13 O meu corpo
- 14 O fado da procura
- 15 Primeira vez
- 16 E viemos nascidos do mar
- 17 Mapa do coração
- 18 Até ao fim do fim
- 19 Rosa cor de rosa
- 20 Os búzios
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Letra e Música de
Neste trabalho, os fados tradicionais convivem com outros em formato canção e é nas letras que a fadista nos reserva algumas (boas) surpresas como no tema “E Viemos Nascidos do Mar” que conta com um poema de Fausto, Amélia Muge que lhe escreveu “O Fado da Procura”, ou na sua escolha de um poema de Fernando Pessoa em “Vaga, no Azul Amplo Solta”, do qual sai o título do disco. Este último tema foi musicado pelo lendário músico espanhol Patxi Andión, cantando-o também, em dueto e em castelhano, com Ana. Destaque ainda para a participação de Tim Ries, o saxofonista dos Rolling Stones, que compôs a música de “Velho Anjo” e toca saxofone no tema “A Sós Com a Noite”. Jorge Fernando é, mais uma vez, o produtor musical do disco, sendo também o autor/compositor de alguns temas. Ana Moura gravou com Custódio Castelo na guitarra portuguesa (o guitarrista também assina algumas músicas do álbum), Filipe Larson no viola-baixo e Jorge Fernando na viola.
- Alinhamento
- 01 Os búzios
- 02 E viemos nascidos do mar
- 03 A voz que conta a nossa história
- 04 Águas do Sul
- 05 O fado da procura
- 06 Rosa cor de rosa
- 07 Primeira vez
- 08 Não fui eu
- 09 Mapa do coração
- 10 Aguarda-te ao chegar
- 11 Até ao fim do fim
- 12 Fado das horas incertas
- 13 Vaga, no azul amplo solta
- 14 Velho anjo
- 15 A sós com a noite
Letra e Música de Jorge Fernando
Havia a solidão da prece no olhar triste
Como se os seus olhos fossem as portas do pranto
Sinal da cruz que persiste
Os dedos contra o quebranto
E os búzios que a velha lançava
Sobre um velho manto
À espreita está um grande amor
Mas guarda segredo
Vazio, tens o teu coração
Na ponta do medo
Vê como os búzios caíram
Virados p’ra Norte
Pois eu vou mexer no destino
Vou mudar-te a sorte
Havia um desespero intenso na sua voz
O quarto cheirava a incenso mais uns quantos pós
A velha agitava o lenço
Dobrou-o, deu-lhe dois nós
E o seu Pai de Santo falou
Usando-lhe a voz
À espreita está um grande amor
Mas guarda segredo
Vazio, tens o teu coração
Na ponta do medo
Vê como os búzios caíram
Virados p’ra Norte
Pois eu vou mexer no destino
Vou mudar-te a sorte
Letra e Música de Fausto Bordalo Dias
E muito se espantam da nossa brancura
Entretanto
E muito pasmavam de olhar
Olhos claros assim
Palpavam as mãos e os braços
E outras partes
Portanto
Esfregavam de cuspo minha pele
Para ver se era
Enfim
Uma tinta
Ou se era de estampa
Uma carne tão branca
Vendo assim que era branco
O meu corpo e a brancura de então
Extasiam
E muito se pasmam
De todo em admiração
E uns escondem as suas vergonhas
Cobertas de estopas
E eram grandes e gordos
E baços
E enxutos
Os pretos
Pelas ventosidades
Confundem traseiros e bocas
E tapam aqueles e estas
Dobram calafetos
E os mais pardos
Lá vão quase nus
Vão ao léu
Gabirus
E de tetas até à cintura
Há mulheres crepitantes
Tão desnudas
Meneiam na dança
O seu corpo dançante
E éramos brancos de assombro
E nascidos do mar
Pelas naves
Guiados pelos ventos do céu
E pelo voo das ave
Letra de Jorge Fernando
Música de Armando Machado (Fado Licas)
Amiga, no meu peito as horas dormem
Num compassar dolente e sossegado
Seduz a minha alma uma voz d’homem
Que ao longe entoa triste um triste fado
Como se aquela voz entristecida
Contasse a nossa história a toda a gente
Cada quadra parece ser escolhida
Do amor que quer doer-me lentamente
E enquanto eu não reclamo a dor dos dias
Em que me afundo a sós nesta memória
No frio das noites frias e vazias
Só cabe a voz que conta a nossa história
Letra de Jorge Fernando
Música de Custódio Castelo
Escurece o azul
Está negro o céu
Águas do Sul
Nunca assim choveu
Passar a ponte
Noite cerrada
Água da fonte
Turva e enlameada
Rosário triste
Nas mãos do crente
Deus guarde a sorte da gente
Esquiva-se a luz
Dos meus faróis
Pesa-me a cruz
Vida quanto dóis
Velho sinal
Curva apertada
Vê-se tão mal
Na estrada molhada
Sorriso triste
Ai de quem não mente
Deus guarde a sorte da gente
Cedi aos medos
Fugi à dor
Por entre os dedos
Fugiste-me, amor
Leve embaraço
Não ver ninguém
Fundo cansaço
Reduzo p’ra cem
Que noite triste
Penso de repente
Deus guarde a sorte da gente
Letra e Música de Amélia Muge
Mas porque é que a gente
Não se encontra?
No Largo da Bica
Fui-te procurar
Campo de Cebolas
E eu sem te encontrar
Eu fui mesmo até
À Casa do Fado
Mas tu não estavas
Em nenhum lado
Mas porque é que a gente
Não se encontra?
Mas porque é que a gente
Não se encontra?
Já estou sem saber
O que hei-de fazer
Se seguir em frente
Ai Madre de Deus
Se voltar atrás
Ai Chiados meus
E o rio diz:
Que tarde infeliz
Mas porque é que a gente
Não se encontra?
Mas porque é que a gente
Não se encontra?
Já estou farta disto
Farta de verdade
Vou beber a bica
Sentar e pensar
Ver se esta saudade
Ai fica ou não fica…
E talvez sem querer
Não querem lá ver
Sem te procurar
Te veja passar
Sem te procurar
Te veja passar
Letra de Jorge Fernando
Música de Custódio Castelo
Rosa, rosa cor-de-rosa flor
A florir os meus cuidados
Sobra-me a dor, sobra-te a cor
P’ra cumprir meus fados
Sobra-me a dor, sobra-te a cor
P’ra cumprir meus tristes fados
Rosa, rosa cor-de-rosa traz
A saudade apetecida
Fico-me atrás, roubo-te a paz
Se te roubar à vida
Fico-me atrás, roubo-te a paz
Se te roubo um dia a vida
Rosa, rosa cor-de-rosa enfim
Quando a cor se desvanece
Eu sei de ti, sabes de mim
Quando o amor acontece
Eu sei de ti, sabes de mim
Quando o amor nos acontece
Rosa, rosa cor-de-rosa tens
No teu pé a sede d’água
Não sei que tens, nem donde vens
Cuida a minha mágoa
Não sei que tens, nem donde vens
Cuida bem a minha mágoa
Letra de Mário Raínho
Música de Frederico de Brito (Fado Azenha)
Primeiro foi um sorriso
Depois, quase sem aviso,
É que o beijo aconteceu
Nesse infinito segundo
Fora de mim e do mundo
Minha voz emudeceu!
Ficaram gestos suspensos
E os desejos,imensos,
Como poemas calados,
Teceram a melodia
Enquanto a Lua vestia
Nossos corpos desnudados.
Duas estrelas no meu peito
No teu, meu anjo perfeito,
A voz de búzios escondidos
Os lençóis, ondas de mar
Onde fomos naufragar
Como dois barcos perdidos!
Os lençóis, ondas de mar
Onde fomos naufragar
Todos os nossos sentidos!
Letra e Música de Jorge Fernando
O Cristo inerte preso à cruz
A luz da vela que o reduz
À sombra triste na parede entrecortada
Dos lábios solta-se, indulgente
A prece inútil do não crente
Entre palavras que por si não dizem nada
Não fui eu
Não fui eu
Não deixei a porta aberta
Não fui eu
Não fui eu
Ficou-me a casa deserta
Há como um fugidio rumor
De passos que no corredor
Induzem na minh’alma a dor da esperança vã
Sinais do tempo a humedecer
A voz que teima em enrouquecer
E o corpo dorido pela noite no divã
Não fui eu…
Como esta febre me destrói
Perdido amor, quanto me dói
Desceste em mim o cruel manto da tristeza
Em cada noite morro, amor
Que a solidão faz-se maior
Mal amanhece e volta o medo que anoiteça
Não fui eu…
Letra de Nuno Miguel Guedes
Música de José Blanc (Fado Blanc)
Não há vocábulo maior
Nem força do Universo
P’ra traduzir esse verso
Que confunde amor e dor
Albergue de quem é triste
Fortuna do condenado
Que vê no espelho do fado
A alma que em si existe
Queria poder dizer
O que essa voz me diz
Estrela de um dia feliz
Ou de um doce entristecer
Fica-me a louca ambição
O desejo mais ousado
De poder cantar num fado
O mapa do coração
Letra de Cristina Viana
Música de Carlos Viana
Calas-me a voz, voz do olhar
Sinto que o tempo tarda em chegar
Distante, ausente, sinto apertar
O peito ardente por te encontrar
Na minha alma que anseia urgente
Pelo momento de ter-te presente
P’lo infinito, estendo os meus olhos
Um mar de mil desejos, aguarda-te ao chegar…
Encho a minha taça vazia
Com perfumes de poesia
Bebo a saudade amarga e fria
E então adormeço ao luar
Calas-me a voz p’ra lá do tempo
Estrelas que caem por um lamento
Espuma na areia, solta no vento
O meu silêncio, meu sentimento
Em minha alma que chora vazia
Por um momento se acende a magia
P’lo infinito estendo o meu sorriso
Num mar azul de sonhos
Acorda-me ao chegar…
Encho a minha taça ardente
Com o incenso doce e quente
Sirvo de beber à alegria
Que sinto ao ver-te a chegar
Calas-me a voz…
Em minha alma que chora vazia
Por um momento se acende a magia
P’lo infinito estendo os meus olhos
Um mar de mil desejos
Aguarda-te ao chegar
Letra e Música de Tozé Brito
Então está tudo dito, meu amor
Por favor, não penses mais em mim
O que é eterno acabou connosco
E este é o princípio do fim
Mas sempre que te vir
Eu vou sofrer
E sempre que te ouvir
Eu vou calar
Cada vez que chegares
Eu vou fugir
Mas mesmo assim amor
Eu vou-te amar
Até ao fim do fim
Eu vou-te amar
Então está dito, meu amor
Acaba aqui o que não tinha fim
Para ser eterno tudo o que pensámos
Precisava que pensasses mais em mim
Para ti pensar a dois é uma prisão
Para mim é a única forma de voar
Precisas de agradar a muita gente
Eu por mim só a ti queria agradar
Letra e Música de Jorge Fernando
Deixo a porta entreaberta
Aos medos onde me afoite
Bate a meia-noite incerta
De ser mesmo o meio da noite
Tão redondas são as horas
Tão inúteis e tão longas
Minh’alma quanto mais choras
Mais as horas tu me alongas
Só a dor trai o sossego
No rodar desta ansiedade
Quando à saudade me nego
Fingindo não ter saudade
Letra de Fernando Pessoa
Música de Patxi Andión
Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.
Lo que lloro es diferente
Está en el centro del alma
Mientras, en cielo silente
La nube se mece en calma
E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.
Pero al fin, lo que es llanto
En esta triste amargura,
Vive en el cielo mas alto.
En la nostalgia mas pura.
No se lo que es, ni consiento / Não sei o que é nem consinto
Al alma saberlo bien. / À alma que o saiba bem.
Visto el dolor con que miento / Visto da dor com que minto
Dolor que en mi alma es ser. / Dor que a minha alma tem
Letra de Jorge Fernando
Música de Tim Ries
Entre as plumas de um velho anjo
Roça a sombra na asa ferida
A inocência das mãos no peito
E o beijo salva-me a vida
Entre os astros d’um céu azul
O cristal de uma voz esquecida
Descuidados os pés virados ao sul
Salva-me a vida
Não há luz que ilumine
A noite intensa
Da ausência
Em mim suspensa
Que a existência
Não flui
Entre os dedos
Que os meus segredos
São os temores
Da minha alma assustada
Que procura
Dar-se ao desejo suspenso
Em ti
Letra e Música de Jorge Fernando
Alongando-me a sombra sozinha
A saudade a bater
Uma dor que ao doer é só minha
Um desvio inquieto
Um olhar indiscreto na esquina
Um rapaz de blusão
Arrastando pela mão a menina
Passa um velho a pedir
Incapaz de sorrir
Pelos passeios
Um travesti que quer
Assumir-se mulher
Sem receios
O alarme de um carro
Um cigarro apagado indulgente
Um cheiro inusitado
O semáforo fechado p’ra gente
Sobe o fado de tom
E o fadista que é bom, improvisa
Estão em saldo os sapatos
Desce o preço dos fatos
De cor lisa
Um eléctrico cheio
Uma voz de premeio, vai chover
Bate forte a saudade
Como é grande a vontade de te ver
A luz que se arredonda
Alongando-me a sombra sozinha
A saudade a bater
Uma dor que ao doer
É só minha
- Alinhamento
- 01 Por um dia
- 02 Ao poeta perguntei
- 03 O que foi que aconteceu
- 04 Ouvi dizer que me esqueceste
- 05 Fado de Pessoa
- 06 Amor de uma noite
- 07 Eu quero
- 08 Bailinho à portuguesa
- 09 Creio
- 10 Através do teu coração
- 11 Como o tempo corre
- 11 Hoje tudo me entristece
- 13 Passos na rua
- 14 Mouraria
- 15 Fado menor
- 16 Dentro da tempestade
- 17 Cumplicidade
- 18 Ó meu amigo João
- 19 Venho falar dos meus medos
- 20 Nada que devas saber
Letra e Música de Jorge Fernando
Perguntares como é que eu estou
Não é quanto baste
Quereres saber a quem me dou
Não é quanto baste
E dizeres para ti morri
É um estranho contraste
Nada mais te liga a mim
Tu nunca me amaste
Telefonas p’ra saber
Como vai a vida
E mais feres sem querer
Minha alma ferida
E assim rola a minha dor
Pássaro ferido
Que não esquece o teu amor
Estranho e proibido
Dizes ser tão actual
Ficarmos amigos
No teu jeito natural
De enfrentares os perigos
Sem saberes que dentro em mim
Ainda arde a chama
Que não perde o seu fulgor
Que ainda te ama
Deixa-me só por um dia
Minha fria companhia
Letra e Música de Alberto Janes
Ao poeta perguntei
Como é que os versos assim aparecem
Disse-me só eu cá não sei
São coisas que me acontecem
Sei que nos versos que fiz
Vivem motivos dos mais diversos
E também sei que sendo feliz
Não saberia fazer os versos
Ó meu amigo não penses que a poesia
É só a caligrafia num perfeito alinhamento
As rimas são assim como um coração
Em que cada pulsação nos recorda sofrimento
E nos meus versos pode não haver medida
Mas o que há sempre são coisas da própria vida
Fiz versos como faz dia
A luz do sol sempre ao nascer
Eu fiz os versos porque os fazia
Sem me lembrar de os fazer
Como a expressão e os jeitos
Que p’ra cantar se vão dando à voz
Todos os versos andam já feitos
De brincadeira dentro de nós
E assim amigo
Já viste que a poesia
Não é só caligrafia
São coisas do sentimento
Letra e Música de Tozé Brito
Aconteceu,
Eu não estava à tua espera
E tu não me procuravas,
Nem sabias quem eu era,
Eu estava ali
Só porque tinha que estar,
E tu chegaste
Porque tinhas que chegar,
Olhei para ti, o mundo inteiro parou,
Nesse instante a minha vida mudou,
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos
O que foi que aconteceu
Aconteceu,
Chama-lhe sorte ou azar,
Eu não estava à tua espera
E tu voltaste a passar
Nunca senti
Bater o meu coração
Como senti
Ao sentir a tua mão,
Na tua boca
O tempo voltou atrás,
E se foi louca essa loucura,
Essa loucura foi paz
Tudo era para ser eterno
E tu para sempre meu
Onde foi que nos perdemos
O que foi que aconteceu?
Letra e Música de Jorge Fernando
Guitarra triste, ouvi dizer
Que me esqueceste
No teu gemido, tão magoado
Guitarra triste, perdi a vez
E tu perdeste
O céu oculto onde anoitece
E nasce o fado
O meu peito se apequena
Como se a alma atormentada
Entre as cordas vibrando
Se quisesse esconder
Fecho os olhos e triste
Sigo a voz desesperada
Que como eu está gritando
Toda a dor de viver
Não vou querer repartir
Com mais ninguém a solidão
Escondida de mim
No teu triste trinado
O meu traído amor
Calou-me a dor dessa traição
Foi por isso que enfim
Nunca mais cantei fado
Letra e Música de João Pedro Pais
Um fado pessoano
Num bairro de Lisboa
Um poema lusitano
No dizer de Camões
Uma gaivota em terra
Um sujeito predicado
Um porto esquecido
Um barco ancorado
Leva-as o vento
Meras palavras
Guarda no peito
A ingenuidade
Figura de estilo
Tua voz na proa
De um verso já gasto
No olhar de Pessoa
Uma frase perfeita
E um beijo prolongado
Uma porta aberta
Traz odor a pecado
Uma guitarra com garra
Ouvida entre os umbrais
Numa cidade garrida
Com vista para o cais
Letra de Jorge Fernando
Música de Carlos Viana
Meu amor duma noite
Que poderás fazer de mim agora
Se o meu pecado é açoite
A açoitar-me noite fora
Amor meu de quem sou eu agora
Meu amor que sublimado
É este amor que é feito por amor
Perfeito e emancipado
Quando alcançamos a dor
Dispersa no mar de quem faz amor
Ressuscito nos teus braços
Se me dizes foi tão bom
Alimenta-me o desejo
Meu amor como é bom
Não há tempo nem há espaço
Quando a dois tudo é bom
E até mesmo o próprio eu
Não existe, quando é bom
Meu amor realizado
Nascida flor entre dois seres aflitos
Pedaços despedaçados
Que resolvemos convictos
Senhora
Bendita mãe dos aflitos
Ressuscito nos teus braços
Se me dizes foi tão bom
Alimenta-me o desejo
Meu amor como é bom
Não há tempo nem há espaço
Quando a dois tudo é bom
E até mesmo o próprio eu
Não existe, quando é bom
Letra e Música de Júlio Vieitas
Eu quero
Eu sei o que quero
A vida p’ra mim é assim
Eu quero, eu sei onde vou
Eu quero
Mas não quero nem tolero
Que possas julgar de mim
Tudo aquilo que eu não sou
Não quero
Quero seguir o caminho da verdade
Deus queira que este amor seja sincero
Se for caminho errado
Será mais um pecado
E amor por caridade
Não quero
Escuta, medita, tem calma
Eu quero chamar-te à razão
Não quero desdém nem ciúme
Não quero
O fogo que tens na alma
Faz queimar meu coração
Quero apagar esse lume
Eu quero
Letra e Música de Alberto Janes
Num bailinho à portuguesa
Com o harmónio o zambuba mais os pratos
Tem que se ter a certeza, de ter atado os sapatos
Se o mestre manda virar
Todo o rancho num só pé logo girou
E sem dizer nada ao par
Quando um vira outro virou
Vai de roda agora
Cada qual com o seu par
Ai que vai pela porta fora
Ai quem vier p’ra namorar
Cada um com a sua
Que ninguém me troque o passo
Ai que vai para o olho da rua
Quem falta aqui ao compasso
Há alegria e respeito
No bailinho cá das nossas romarias
Parte-se a cara ao sujeito
Por pensar em avarias
Às vezes o mestre pita
Para chamar a atenção cá dos rapazes
E há um tipo a quem grita
Ó Chico olha o que fazes
Letra de Natália Correia
Música de Jorge Fernando
Creio nos anjos que andam pelo mundo
Creio na deusa com olhos de diamantes
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro
Creio na carne que enfeitiça o além
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén.
Letra de Sophia de Mello Breyner
Música de Arrigo Cappelletti
Através do teu coração
Passou um barco
Que não pára de seguir
Sem ti o seu caminho
Letra de Fernando Mata
Música de Fado meia noite
No céu de estrelas lavado
Pelo luar que beija o chão
Nasce um cinzento azulado
Que me aquece o coração
Como o tempo seca o pranto
Adormece a própria dor
E vejo com desencanto
Passar o tempo do amor
No seu correr tudo leva
Na fúria da tempestade
Se parte nunca mais chega
Chega em seu lugar saudade
Meu Deus como o tempo corre
No tempo do meu viver
Parece que o tempo morre
Mesmo antes de nascer
Letra de Jorge Fernando
Música de Fado Franklin
Hoje tudo é triste em mim
Como se toda a tristeza
Emanasse do meu peito
Breve presságio do fim
Que me sustenta a certeza
Do coração já desfeito
Hoje tudo me entristece
Tudo ensombra o meu olhar
Mais que ansioso do teu
Mas se em sorte me coubesse
O coração resgatar
Que em teus olhos se perdeu
Hoje a tristeza não deixa
De afundar seus longos traços
No meu rosto descuidado
Pois sem uma simples queixa
Eu vou voltar aos teus braços
P’ra se cumprir nosso fado
Letra de Carlos Manuel
Música de Pintadinho
Passos na rua, quem passa
Quem passa traz o passado
Talvez seja uma ameaça
Ou o silêncio de fado
Passos na rua quem é
É um sonho magoado
É a ira da maré
É a morte dum pecado
Passos na rua ilusão
De quem quer ouvir tais passos
Talvez seja um coração
A gritar os seus cansaços
Passos na rua sentença
Dum fado por inventar
Passos na rua descrença
Deixai os passos passar
Letra de Mª Helena B. Guerreiro
Música de Jaime Santos
Porque será que não canto
Como canta a cotovia
O meu cantar nem é pranto
É gemer duma agonia
Chora assim meu coração
Tens razão para o fazer
Matou a vida a ilusão
Que não tornas a viver
Sofrer fez-me diferente
Dizes tu e tens razão
Pois não é imponentemente
Que se tem um coração
Ando a cumprir uma pena
Mas crime não cometi
Só sei que ela me condena
A viver longe de ti
Letra de João Linhares Barbosa
Música de José Alfredo dos Santos Moreira
Os meus olhos são dois círios
Dando luz triste ao meu rosto
Marcados pelos martírios
Da saudade e do desgosto
Quando oiço bater trindades
E a tarde já vai no fim
Eu peço às tuas saudades
Um padre nosso por mim
Mas não sabes fazer preces
Não tens saudade nem pranto
Porque é que tu me aborreces
Porque é que eu te quero tanto
Mas para meu desespero
Como as nuvens que andam altas
Todos os dias te espero
Todos os dias me faltas
Letra de Tiago Bettencourt
Música de Marques do Amaral
Fico presa na tempestade
Onde não durmo comigo
Há restos de verdade
A que a dor tirou sentido
Caída entre os espaços
Do meu corpo destruído
Já não há restos de verdade
E a dor perdeu sentido
Deixei armas dos meus braços
Larguei roupas que vesti
Deixei ruas onde as pedras
Tatuaram os meus passos
No mar de mãos turvas
Nadavas transparente
Encontramo-nos num gesto
Inteiro e indiferente
Choramos como quem nasce
Escorrendo a saudade
Vens no Sol de madrugada
Como a mão na tempestade
Letra de Jorge Fernando
Música de Fado Alberto
Quando chamo por ti mais ninguém ouve
A mais ninguém é dado me entender
És o amor em mim que se dissolve
Na água da minha alma a envelhecer
Sei que o meu pensamento tem uma voz
Que dentro do teu ser se faz ouvir
Assim quando te penso somos nós
Na cumplicidade amante de existir
Então d’olhos fechados num momento
Desfaço esta lonjura entre nós
Por ti mil vezes chamo em pensamento
Em ti mil vezes ouves minha voz
Letra de Jorge Fernando
Música de Fado corrido
Ó meu amigo João
Em que terras te perdeste
Se por nada lá morreste
Meu amigo meu irmão
De nascença duvidosa
Proibiram tua infância
Transformaram-te em distância
Como braços de alcançar
Foste folha a flutuar
Arrastada pela corrente
E o teu sangue foi semente
Dos cifrões doutro lugar
Gostavas de ouvir cantar
As modas da nossa terra
E a verdade que se encerra
No seu jeito popular
Teu corpo de tudo dar
Corre nas veias do mundo
Imenso fértil fecundo
Com força de terra e mar
Ponho em ti o recordar
Na agrura da tua morte
Por sobre o sangue a gritar
Que não foi azar nem sorte
E a força do vento norte
Levou teu grito na mão
Meu amigo meu irmão
Quem forçou a tua sorte
Letra de António Laranjeira
Música de Fado Acácio
Senhora eu tenho fé
De encontrar a minha luz
Nesta imensa escuridão
Venho falar dos meus medos
São vossos os meus segredos
Que eu partilho em confissão
Senhora há tanto tempo
Que me assaltam tantas dúvidas
Não posso viver assim
Um turbilhão de incertezas
Parecem velas acesas
A queimar dentro de mim
Será senhora o destino
Que me estava reservado
Desde o meu primeiro dia
Que faço ao meu coração
Sofrendo de solidão
Na dor que não me alivia
Letra de Miguel Guedes
Música de Francisco Viana
Vou usar o teu silêncio
Não o vais querer ouvir
A desfazer-me os sonhos
Vou devolver-to e partir
Porque me esgotas num jogo
Naquele que dá as cartas
Não colori a avalanche
A negro e sombra, cores gastas
Se eu morro na tua escolha
Como me deixas fugir
Amarro sonhos e vou
Para onde nunca quis ir
Amar-te assim, querendo tanto
Que fosse igual o teu querer
Faço de conta, por ti
Já nada que devas saber
2003
Guarda-me a Vida na Mão
Editora: Universal Music
Suporte: CD
Muito bem recebido pelo público e pela crítica o primeiro disco revelava uma carreira promissora. Com produção e arranjos de Jorge Fernando e co-produção de Fernando Nunes, “Guarda-me a vida nas mãos” conta com Mário Pacheco na guitarra portuguesa, Jorge Fernando na viola e Filipe Larson na viola baixo.
- Alinhamento
- 01 Guarda-me a vida na mão
- 02 Desculpa (seria quase voz)
- 03 Nasci p’ra ser ignorante
- 04 Sou do fado, sou fadista
- 05 Vou dar de beber à dor
- 06 Preso entre o sono e o sonho
- 07 Não hesitava um segundo
- 08 Por que teimas nesta dor
- 09 Meu triste, triste amor
- 10 Endeixa
- 11 Quem vai ao fado
- 12 Flor de lua
- 13 Guitarra
- 14 Às vezes
- 15 Lavava no rio lavava
Letra de Jorge Fernando
Música de Raul Ferrão (Fado Carriche)
Guarda-me a vida na mão
Guarda-me os olhos nos teus
Dentro desta solidão
Nem há presença de Deus
Como a queda dum sorriso
P´lo canto triste da boca
Neste vazio impreciso
Só a loucura me toca
Esperei por ti, todas as horas
Frágil sombra olhando o cais
Mas mais triste que as demoras
É saber que não vens mais
Letra de Jorge Fernando
Música de José Pereira
Desculpa de não ser como tu queres
De ser o lado errado entre nós
Aperta-me em teus braços de mulher
Disseste-o num soluço quase voz
Desculpa não ser mais p´ra te oferecer
No tudo que te dou e que é tão pouco
Repousa-me em teus braços de mulher
Disseste tu num tom velado e rouco
Desculpa a pequenez que me apequena
Aos teus olhos adultos penetrantes
Acolhe com piedade a alma enferma
Disseste à flor d´uns lábios delirantes
Desculpa por te olhar aquém do pranto
Que dos meus olhos corre ao estarmos sós
Desculpa por ainda te amar tanto
Disseste-o num soluço quase voz
Letra de Sebastião da Gama
Música de Carlos Gonçalves
Nasci p´ra ser ignorante
Mas os parentes teimaram
E dali não arrancaram
Em fazer de mim estudante
Que remédio obedeci
Há já 3 lustros que estudo
Aprender aprendi tudo
Mas tudo desaprendi
Perdi o nome às estrelas
Aos nossos rios e ao de fora
Confundo fauna com flora
Atrapalham-me as parcelas
Mas passo dias inteiros
A ver o rio a passar
Com aves e ondas do mar
Tenho amores verdadeiros
Rebrilha sempre uma estrela
Por sobre meu parapeito
Pois não sou eu que me deito
Sem ter falado com ela
Conheço mais de mil flores
Elas conhecem-me a mim
Só não sei como em latim
As crismaram os doutores
Enquanto as águas correrem
Não sentirei calafrios
Que flores aves e rios
Ignorante é quem me querem
Letra e Música de Jorge Fernando
Sei, que a alma se ajeitou
Tomou a voz nas mãos
Rodopiou no peito
E fez-se ouvir no ar
E eu fechei meus olhos
Tristes só por querer
Cantar , cantar
E uma voz me canta assim baixinho
E uma voz me encanta assim baixinho
Sou do fado
Sou do fado
Eu sou fadista
Sei que o ser se dá assim
Às margens onde o canto
Recolhe em seu regaço
As almas num só fado
E eu prendi-me a voz
Como a guitarra ao seu
Trinado, trinado
E uma voz me canta assim baixinho
E uma voz me encanta assim baixinho
Sou do fado
Sou do fado
Eu sou fadista
Letra e Música de Alberto Janes
Foi no domingo passado que passei
À casa onde vivia a Mariquinhas
Mas está tudo tão mudado
Que não vi em nenhum lado
As tais janelas que tinham tabuínhas
Do rés-do-chão ao telhado
Não vi nada , nada, nada
Que pudesse recordar-me a Mariquinhas
E há um vidro pegado e azulado
Onde via as tabuínhas
Entrei e onde era a sala agora está
Á secretária um sujeito que é lingrinhas
Mas não vi colchas com barra
Nem viola nem guitarra
Nem espreitadelas furtivas das vizinhas
O tempo cravou a garra
Na alma daquela casa
Onde às vezes petiscávamos sardinhas
Quando em noites de guitarra e de farra
Estava alegre a Mariquinhas
As janelas tão garridas que ficavam
Com cortinados de chita as pintinhas
Perderam de todo a graça
Porque é hoje uma vidraça
Com cercaduras de lata às voltinhas
E lá p´ra dentro quem passa
Hoje é p´ra ir aos penhores
Entregar ao usurário umas coisinhas
Pois chega a esta desgraça toda a graça
Da casa da Mariquinhas
Para terem feito da casa o que fizeram
Melhor fora que a mandassem p´rás alminhas
Pois ser casa de penhor
O que foi viver de amor
É idéia que não cabe cá nas minhas
Recordações do calor
E das saudades o gosto
Eu vou procurar esquecer
Numa ginginhas
Pois dar de beber à dor é o melhor
Já dizia a Mariquinhas
Letra de Jorge Fernando
Música de Fontes Rocha
Uma flor não te dá nome
Não há jardim que te cresça
Vou saciar minha fome
Quando em ti meu olhar desça
Um silêncio que te chama
E os olhos num longo traço
Fecham-se à luz que derrama
Sobre a cama que eu desfaço
Um livro espera tristonho
Entreaberto a meu lado
Preso entre o sono e o sonho
Nem aberto nem fechado
Não há caminho que tome
Não há voz que em mim conheça
Que chegue p´ra te dar nome
Não há flor que te pareça
Letra e Música de Tozé Brito
Entre os teus olhos azuis
E um quadro azul de Picasso
Entre o som da tua voz
E o som de qualquer compasso
Entre o teu anel de prata
E todo o ouro do mundo
Escolheria o que é teu
Não hesitava um segundo
Quantas ondas há no mar
Quantas estrelas no céu
Tantas quantas nos meus sonhos
Foste minha e eu fui teu
Entre o teu anel de prata
E todo o ouro do mundo
Escolheria o que é teu
Não hesitava um segundo
Entre o céu da tua boca
E a luz do céu de Lisboa
Entre uma palavra tua
E um poema de Pessoa
Entre a cor do teu sorriso
E todo o brilho do mundo
Escolheria o que é teu
Não hesitava um segundo
Entre o teu anel de prata
E todo o ouro do mundo
Escolheria o que é teu
Não hesitava um segundo
Letra de José Luis Gordo
Música de Carlos Gomes
Por que teimas nesta dor
Por que não lhe queres dar fim
Tu sabes que o nosso amor
Não morre dentro de mim
Não te dou beijos fingidos
Que a boca sabe a verdade
Os teus lábios proibidos
Prende a minha alma à saudade
Mesmo que ao beijar não sintas
O que a tua boca diz
Meu amor por mais que mintas
Nos teus beijos sou feliz
Meu amor na tua boca,
Há um silêncio que é nosso
Um travo de coisa pouca
E amar-te mais eu não posso
Letra de Jorge Fernando
Música de Alfredo Marceneiro
Meu triste, triste amor
Das noites inocentes
Que o amor ao possuir-me
Inocentiza-me o ser
Por sobre a minha pele
As tuas mãos reluzentes
Afadigam-se no corpo
P´ra melhor o conhecer
Meu triste, triste amor
De anseios prematuros
De ventos circundantes
Incentivados por nós
O amor se faz ouvir
Por entre beijos seguros
Num sussurro insolente
Que não nos chega a ser voz
Meu triste, triste amor
De inuzitada memória
De incontadas promessas
Em tímido pudor
Somente a nossa voz
Poderá contar a história
Do quanto nos amámos
Meu triste, triste amor
Letra de Camões
Música de Carlos Gonçalves
Pois meus olhos não deixam de chorar
Tristezas que não cansam de cansar-me
Pois não abranda o fogo em que abrazar-me
Pode quem eu jamais pude abrandar
Não canse o cego amor de me guiar
A parte donde não saiba tornar-me
Nem deixe o mundo todo de escutar-me
Enquanto me a voz fraca não deixar
E se em montes, em rios, ou em vales
Piedade mora ou dentro mora amor
Em feras, aves, plantas , pedras ,águas
Ouçam a longa história de meus males
E curem sua dor com minha dor
Que grandes mágoas podem curar mágoas
Letra e Música de Jorge Fernando
Quem vai ao fado meu amor
Quem vai ao fado
Leva no peito algo de estranho a latejar
Quem vai ao fado meu amor
Quem vai ao fado
Sente que a alma ganha asas quer voar
Sempre que entristeço e a nostalgia cai em mim
Ouço de tão longe estranha voz por mim chamar
É um canto doce mavioso ou coisa assim
Logo a minha alma faz-se voz e quer cantar
Bálsamo bendito a esta terra quis Deus dar
Mais vale cantar do que chorar
Sempre que radioso o coração se agita em mim
Num impulso alegre a felicidade vem morar
Abandono a voz no Mouraria porque assim
Sei que o coração quer à guitarra forma dar
Bálsamo bendito a esta terra quis Deus dar
Mais vale cantar do que chorar
Letra de Amália Rodrigues
Música de Carlos Gonçalves
Campo chão
Torna a dor
Minha dor
Solidão
Vai no vento
A passar
Um lamento
A gritar
Dó ré mi
Mi fá sol
Dó ré mi
chora a fonte
Girasol
reza o monte
velho cardo
esguio nardo
flor de lua
mi fá sol
girassol
eu sou tua
torna flor
minha flor
campo chão
torna a dor
minha dor
solidão
grita o mar
geme o vento
teu olhar
meu tormento
chora a lua
flor dourada
madressilva
madrugada
canta a lua
seminua
flor mimosa
sargaçal
roseiral
minha rosa
chora a fonte
reza o monte
branca asa
canta a flor
chora a flor
campa rasa
Letra e Música de Jorge Fernando
Ó guitarra guitarra , por favor
Abres-me o peito com chave de dor
Guitarra emudece
O som que me entristece
Vertendo sobre mim a nostalgia
Ò guitarra, guitarra, vais ter dó
Não rasgues o silêncio ao veres-me só
Guitarra o teu gemer
Mais dor me vem fazer
Como o vento a afagar a noite fria
Guitarra emudece, o som que me entristece
Pois se te ouço chorar, eu também choro
Maior do que a madeira em que te talham
Guitarra é o teu mundo onde moro
Ò guitarra guitarra, por favor
Abres-me o peito com chave de dor
Ò guitarra guitarra fica muda
Sem ti, talvez minh´alma inda se iluda
Vais ter que responder
Se em mim tudo morrer
Ao peso desta enorme nostalgia
Letra e Música de Pedro Ayres Magalhães
Às vezes
Quando te peço
Essas coisas que enfim
Eu não mereço
Fico a olhar para ti
E agradeço
Ter o que te pedi
Sempre que peço
E olha
Às vezes penso
Penso que tu me queres
Que eu te pertenço
Distraída de mim
Nada mais peço
Tenho do teu amor
Tudo que eu quero
Aceita, este pensar
Desperta tudo o que eu sou
Regresso ao teu amor
Depressa, a certeza chegou
Adoras
Amamos
Demoras
Enganos
E ainda vou ser feliz
Nos braços do meu amor
Letra de Amália Rodrigues
Música de Fontes Rocha
Lavava no rio lavava
Gelava-me o frio gelava
Quando ia ao rio lavar
Passava fome passava
Chorava também chorava
Ao ver minha mãe chorar
Cantava também cantava
Sonhava também sonhava
E na minha fantasia
Tais coisas fantasiava
Que esquecia que chorava
Que esquecia que sofria
Já não vou ao rio lavar
Mas continuo a chorar
Já não sonho o que sonhava
Se já não lavo no rio
Por que me gela este frio
Mais do que então me gelava
Ai minha mãe minha mãe
Que saudades desse bem
Do mal que então conhecia
Dessa fome que eu passava
Do frio que me gelava
E da minha fantasia
Já não temos fome mãe
Mas já não temos também
O desejo de a não ter
Já não sabemos sonhar
Já andamos a enganar
O desejo de morrer
